Politizado, Festival de Berlim abre com um melodrama ingênuo sobre bondade

Para um evento que se apoia em discurso progressista e politizado, 'The Kindness of Strangers' é opção pouco ousada

Guilherme Genestreti
Berlim

O Festival de Berlim escolheu para ser seu filme de abertura um longa tão morno quanto o inverno não tão frio que paira sobre a capital alemã. “The Kindness of Strangers”, da dinamarquesa Lone Sherfig, não faz jus ao que a atriz Juliette Binoche conta ter ouvido do diretor da mostra, Dieter Kosslick: que todas as produções dirigidas por mulheres foram escolhidas porque são boas por si só.
 
A trama é a tradução literal do título da obra, um ensaio desconjuntado sobre a generosidade dos desconhecidos. No caso, um punhado de gente sofrida tentando sobreviver às agruras de Nova York. A trilha sonora emotiva e insistente só sublinha aquilo que é evidente na história.
 
Zoe Kazan interpreta Clara, mulher que foge com os dois filhos pequenos para Manhattan. O marido é um policial dado a agressões físicas, pelo que ela conta, e a moça não tem onde pernoitar. Marc (Tahar Rahim) é um misantropo que acaba de sair da cadeia. Jeff (Caleb Landry Jones) não tem sorte em nenhum de seus empregos.

Cena do filme 'The Kindness of Strangers', de  Lone Scherfig, em competição no Festival de Berlim de 2019
Cena do filme 'The Kindness of Strangers', de Lone Scherfig, em competição no Festival de Berlim de 2019 - Divulgação


 
A solidária enfermeira Alice (Andrea Riseborough) se desdobra em um monte de trabalhos para ajudar os outros. E há Timofey, o dono de um restaurante que não tem lá muita função no enredo fora o de ser um papel desperdiçado para o talento de Bill Nighy.
 
Os personagens se remoem em autocomiseração e por vezes incorrem em piadas que não foram recebidas com risadas na primeira sessão do filme, nesta quinta (7). Enquanto a trama se desenvolve, eles acabam se encontrando aqui e ali e se ajudando uns aos outros, não depois de terem batido com a cara na porta uma série de vezes.
 
Em conversa com a imprensa, Sherfig disse ter ficado “impressionada” com a bondade que viu entre pessoas semimiseráveis em Nova York. “São muito generosos e é incrível como estão dispostos a ajudar os desconhecidos.”
 
A diretora, de “Educação” e “Meu Irmão Quer se Matar”, tateia questões sociais que, nas mãos de um diretor como Ken Loach (“Eu, Daniel Blake”) seriam muito mais exploradas. Por exemplo, os meandros dos centros de acolhimento para sem-teto nos Estados Unidos, onde Clara vai parar à certa altura. Em vez de se aprofundar , ela prefere se ancorar em platitudes sobre a bondade dos anônimos, que amarram um desfecho narrativo otimista e pouco sofisticado.

 

 
“O filme trata de temas que creio que sejam urgentes no mundo agora”, afirmou a cineasta. “E faria sentido que, ao final, o público saísse esperanço e com um senso de comunidade.”
 
Para um festival como a Berlinale, que se apoia num discurso progressista e politizado, o melodrama “The Kindness of Strangers” é uma opção pouco ousada, ainda mais em tempos de tanta radicalidade fora do cinema.
 
O jornalista se hospeda a convite do Festival de Berlim

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