Projeto vai apresentar 'Sinfonia nº 9', de Beethoven, em cinco continentes

Apresentações terão 'Ode à Alegria' em diversos idiomas em turnê de Marin Alsop com o Carnegie Hall que começará por SP

Sidney Molina
São Paulo

O ponto de partida será São Paulo, em dezembro: na semana final como regente titular da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, Marin Alsop inaugura o projeto All Together: a Global Ode to Joy (todos juntos: uma ode global à alegria), desenvolvido com o Carnegie Hall, de Nova York.

O título remete à "Ode à Alegria" do poeta Friedrich Schiller (1759-1805), usada por Beethoven (1770-1827) no último movimento de sua última sinfonia. Até o fim de 2020 —ano em que Beethoven será homenageado pelos 250 anos de nascimento—, serão nove apresentações da "Sinfonia nº 9" regidas por Alsop, com nove diferentes orquestras de cinco continentes.

Com exceção de São Paulo, todas as apresentações serão no ano que vem: Londres em abril; Baltimore em junho; Wellington em julho; Sydney em agosto; Viena —onde a obra estreou em 1824— em outubro; Joanesburgo e Durban (África do Sul) em novembro; e, em dezembro, no Carnegie Hall.

A Osesp é regida por Marin Alsop - Natalia Kikuchi/Divulgação

Se as orquestras de São Paulo, Joanesburgo e Sydney são referências incontestáveis em suas regiões, Londres e Nova York serão representadas por agrupamentos jovens.

A proposta ambiciona aprofundar o caráter humanista da sinfonia através de projetos locais de interação com as respectivas culturas: novas obras serão encomendadas para dialogar com a "Nona", e o texto da "Ode à Alegria" será cantado nos idiomas de cada localidade.

O diretor artístico da Osesp, Arthur Nestrovski, traduziu o texto de Schiller para o português. "O sentido de seu texto paradoxalmente permanece pouco conhecido pelos milhões ou bilhões de ouvintes que não entendem alemão", afirmou Nestrovski.

Ao longo do processo surgirão novas traduções da "Ode" para o inglês e também versões para o maori e o zulu.

Beethoven conheceu "Ode à Alegria" na adolescência, em Bonn, na Alemanha, sua cidade natal, e sempre quis usá-la em composição. Bonn dista menos de 400 km de Weimar, onde Schiller e os escritores Goethe (1749-1832) e Herder (1844-1803) —nomes centrais da Aufklärung (a versão germânica do Iluminismo francês)— passaram os últimos anos de vida.

Vindo de Paris, o lema "Liberdade, igualdade, fraternidade" exigia, nos Estados de língua alemã, uma aplicação de cima para baixo, isto é, por decretos de "príncipes esclarecidos". Radicado em Viena a partir dos 22 anos, Beethoven sempre dependeu de apoio da nobreza em sua carreira.

Ao usar o texto entoado de Schiller no último movimento da "Nona", o compositor subverteu a forma sinfônica que, tipicamente, é uma linguagem puramente instrumental.

A partitura impactou profundamente os músicos das gerações seguintes e passou a ser utilizada como símbolo humanista em diferentes ocasiões (ficou famosa a performance dirigida por Leonard Bernstein em 1989, após a queda do Muro de Berlim), o que não a impediu de ser apropriada por regimes de exceção.

O primeiro movimento começa hesitante, como se a orquestra estivesse se afinando, e Beethoven também inverte a posição convencional dos movimentos centrais, colocando em segundo lugar o energético "Scherzo" e deixando o doloroso "Adagio" na sequência.

Por fim, o finale é atacado com um acorde súbito, quase incompreensível no contexto, e antes que cantores solistas e coro (até então em silêncio) enfim mergulhem nos versos de Schiller, o compositor cita brevemente fragmentos dos três movimentos anteriores.

Às contradições do iluminismo europeu a Osesp somou a presença do trabalho escravo ao lado de ideias liberais no Brasil do século 19.

Assim, as apresentações de 12 a 15 de dezembro (na Sala São Paulo e no vão livre do Masp) irão interpor à "Nona" um canto baiano de capoeira, um trecho de "Cabinda - Nós Somos Pretos", de Paulo Costa Lima, que estreou na temporada 2015 da orquestra, e uma nova obra encomendada à compositora Clarice Assad, que aludirá também às ironias tropicalistas de "Alegria, Alegria", de Caetano Veloso.

Em tempos nos quais (dentro e fora do Brasil) o conceito de humanidade se fragiliza e oscila, o projeto enfrenta a questão, e o faz sem recusar as formas sonoras de uma alegria ainda possível.

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