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'Ricardo e Vânia' revela mais do homem por trás do apelido Fofão

Livro de Chico Felitti expande reportagem que humanizou lenda urbana de SP

Ivan Finotti
São Paulo

Nem bem chegou às livrarias, o livro "Ricardo e Vânia", de Chico Felitti, já foi comprado por uma produtora de cinema. É que parte dessa história já é bem conhecida do público. Na manhã de 7 de outubro de 2017, o site Buzzfeed publicou uma reportagem de Felitti intitulada "Fofão da Augusta? Quem me chama assim não me conhece".

No final daquele dia, um milhão de pessoas já haviam lido a história de Ricardo Correa da Silva, um cabeleireiro e maquiador que havia se transformado numa das figuras mais controversas de São Paulo. Com pelo menos um litro e meio de silicone aplicado nas bochechas, Ricardo era visto há cerca de 20 anos distribuindo folhetos de peças teatrais nas esquinas da região do Baixo Augusta.

Muitas vezes estava maquiado com cores fortes que o faziam lembrar um palhaço, mas um bem triste: com o passar do tempo, o silicone escorreu para o maxilar e o pescoço, dando a Ricardo a uma aparência bizarra.

um casal em quarto com rede
Vânia deitada no colo de Ricardo em imagem do livro de Chico Felitti, da Todavia, que narra a história do casal - Divulgação

O apelido Fofão, um personagem de TV infantil dos anos 1980, com enormes bochechas, veio devido a essa deformidade. Aliado a isso, surtos esporádicos e violentos de esquizofrenia o transformaram em um personagem mais temido do que querido.

A sensível reportagem nasceu quando Ricardo foi hospitalizado sem documentos na Páscoa de 2017 e buscava, além de contar sua história, descobrir o nome do entregador de folhetos. "Sempre tive grande curiosidade para saber quem era essa pessoa. Na verdade, tinha obsessão", diz Felitti. O texto lhe rendeu o prêmio Petrobras de jornalismo na categoria inovação e Chico foi eleito o melhor repórter de texto do Brasil em 2018.

Essa é primeira parte do livro "Ricardo e Vânia", aumentada agora em algumas páginas e com novas entrevistas. A segunda trata da repercussão da reportagem na vida de Ricardo após sua publicação. Ele passou a ser chamado de Ricardo nas ruas. Mas não por muito tempo: sofreu uma parada cardíaca e morreu com embolia pulmonar três meses e uma semana após reconquistar seu nome.

Já a terceira parte é a que dá nome ao livro. Vânia, nascido Vagner, foi o amor da vida de Ricardo. Entre 1980 e 1989, viveram juntos em uma quitinete no centro de São Paulo, onde começaram a usar silicone no rosto para se assemelharem a bonecas de porcelana chinesas, e também em Araraquara, onde mantiveram um salão.

Inicialmente o negócio fez enorme sucesso, mas a explosão da Aids no fim daquela década assustou a clientela da cidade. Clientes que faziam mão, cabelo e recebiam aplicações de silicone com seringas gigantescas.

Quando a relação terminou, Vânia foi para Paris, onde dançou, se prostituiu e usou diversos nomes, como Babette, Kara e Vênus. Ela mora lá até hoje, mas vem ao Brasil para o lançamento do livro, no Cabaret da Cecília, em São Paulo, no dia 21 de fevereiro.

Além de escrever muito bem, Felitti imprime outro atrativo à obra. O jornalista optou por não contar a história da dupla de forma cronológica, mas sim narrar os fatos à medida que os descobria. "Tive que fazer assim porque eu interfiro pessoalmente na história. Encontramos, por exemplo, a certidão de nascimento de Ricardo em Araraquara, o que possibilitou que ele deixasse de estar registrado como desconhecido no hospital."

O livro, portanto, é contado em primeira pessoa, mas não no singular. Toda a caçada por informações é feita em conjunto por Chico e Isabel Dias, sua mãe, com quem Ricardo se deu muito bem logo no primeiro contato. Mãe e filho também foram juntos para Paris, onde entrevistaram Vânia e conseguiram a maioria das fotos que ilustram o texto.

Devido a essa peculiaridade, "Ricardo e Vânia" serve com um manual de reportagem, pois o leitor segue cada passo do jornalista, e enfrenta com ele as dificuldades inerentes da profissão. Quem é da área vai sorrir com cumplicidade para cada obstáculo superado. Quem não é tem ótima chance para saber como funciona uma reportagem, nesses tempos em que o jornalismo anda tão castigado pela política.

Ricardo e Vânia

Autor: Chico Felitti. Ed. Todavia. R$ 54,90 (192 págs.)

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