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Semana de moda de Londres faz desfiles contra o assédio e a destruição da natureza

Em iniciativa inédita, conselho britânico aposta em instalações de arte em seu projeto

Modelo com nariz de Pinóquio no desfile de Vivienne Westwood em Londres Henry Nicholls/Reuters

Pedro Diniz
Londres

O poder da roupa como negócio tem no circuito europeu de desfiles o palco da extravagância econômica dos grandes grupos de moda. Megadesfiles, tendências e supermodelos muitas vezes ofuscam o viés contestatório que se espera de uma apresentação. Mas não em Londres.

Considerada a capital da costura vanguardista, a cidade terminou sua semana de moda inverno 2020 reafirmando a vocação de levantar bandeiras e questionar o noticiário político, em desfiles que pedem inclusão em tempos de brexit, como foi o da Burberry, e levantam a voz contra o assédio sofrido por mulheres.

A atriz Rose McGowan, uma das primeiras a denunciar as investidas do produtor de cinema Harvey Weinstein contra mulheres em Hollywood, cruzou a passarela de Vivienne Westowood no domingo (17) pedindo democracia, palavra riscada num look detonado.

Ela andava pedindo mais heróis no mundo, enquanto modelos desfilavam com narizes de Pinóquio. A própria estilista entrou no final da apresentação, dançando e gritando por uma moda mais preocupada com o ambiente.

O conselho de moda britânico já havia vetado o uso de pele animal nas coleções e lançou o projeto Sustainable Me, para incentivar a extinção do uso de plástico na confecção.

Mas os fashionistas parecem não ter dado tanta bola. Se não dá pra usar pele verdadeira, a "fake", que leva plástico na composição, encheu as portas dos desfiles com um mix felpudo de cores berrantes e volume que desafia os olhos mais condescendentes.

Na onda de imaginar novos usos para materiais descartáveis, o estilista Christopher Kane manipulou látex e borracha para criar uma coleção fetichista, que teve como mote a liberdade sexual.

Ele brincou com as transparências de lingeries, o sobe-desce das golas, coleiras de BDSM transformadas em gargantilhas luxuosas e referências ao guarda-roupa aristocrático, mas tudo de plástico.

No desfile realizado na segunda (18), ele mostrou bolhas de plástico coladas às roupas cheias de líquidos, emulando fluidos corporais, e vestidos receberam inscrições como "rubberists" —ou "borracheiros", que homenageava o fetiche sexual pela borracha.

O pudor e a ideia de depravação conviviam numa mesma roupa, como homenagens às fantasias ameaçadas pela escalada conservadora.

Londres é reconhecida também por uma espécie de obsessão em testar novos formatos de apresentação e pela tentativa de quebrar paradigmas da confecção de moda.

Pela primeira vez o conselho de moda britânico apostou em instalações de arte em seu projeto International Fashion Showcase, um concurso que leva à temporada designers de moda de diferentes partes do mundo.

Várias salas de uma ala do centro cultural Somerset House foram preenchidas por criações de países como Vietnã, Bangladesh, Quênia e Brasil, que foi representado pelo estilista cearense David Lee.

Roupas feitas de pílulas descartadas pela indústria farmacêutica e acessórios feitos de pedras de sal subvertiam a noção de beleza instituída pelo luxo e punham o design acima do propósito puramente comercial da moda.

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