Cabelos blindado, jacarezinho e chavoso fazem a cabeça das periferias

Penteados cada vez mais coloridos chamam a atenção nos bailes e aparecem para o mundo

Corte blindado feito por Ariel Franco

Corte blindado feito por Ariel Franco Gabriel Cabral/Folhapress

Bruno Molinero
São Paulo

É sexta-feira e logo os bailes vão romper a madrugada dos bairros mais afastados de São Paulo. Paredões embalarão meninas até o chão, garrafas de uísque vão se multiplicar e MCs ditarão a batida até o céu ficar claro. 

A noite, porém, começa muito antes para alguns dos rapazes que costumam ir a essas festas. Antes de passar o perfume, colocar a corrente no pescoço ou escolher a melhor roupa, eles podem passar horas fazendo o cabelo em um salão ou barbearia.

“As meninas gostam, você se torna o centro das atenções”, conta Danilo de Sousa, enquanto sustenta uma cabeleira espetada, laranja e rosa. 

 

Para se destacar, o que faz a cabeça das periferias é sustentar topetes que nenhum Elvis Presley põe defeito, manter fios afiados e exibir desenhos nas laterais da cabeça. Quase sempre com madeixas tingidas de cores vibrantes, do azul-radioativo ao rosa-choque, do verde-ectoplasma ao vermelho-fogo.

Nesse fuzuê capilar, cada estilo recebe um nome: blindado (não desarruma), jacarezinho ou fio a fio (espetado), dimil (para o lado, com mechas), mandrake (para trás) e outros tantos que vão surgindo. Todos com tempo de preparo que chega a uma hora e meia.

Aos 20 anos, Danilo é um dos clientes do salão Mão de Ouro, uma portinha em uma viela de Osasco, na Grande São Paulo, onde cabem apenas duas cadeiras e poucas pessoas. 

Mesmo apertado, o lugar tem espera que pode passar de cinco horas. Para não ficarem de braços cruzados, muitos clientes deixam o número e voltam para casa, só retornando ao serem avisados de que finalmente chegou a sua vez.

A explicação para o sucesso tem nome e sobrenome: jacarezinho camaleão. 

Jacarezinho veio dos fios que ficam eriçados, como um porco-espinho. Camaleão, porque eles mudam de cor, dependendo do ângulo em que a cabeça é vista —para chegar ao efeito, a parte da frente de cada “espinho” é tingida com um tom, enquanto a de trás recebe outra cor. 

“Tem gente que sai de Santos e do Capão Redondo só para fazer”, conta Valter Antonio, 28, um dos sócios do salão.

A criação surgiu há pouco mais de um mês. Era quarta-feira, 23 de janeiro, e o Mão de Ouro tinha pouco movimento —foi quando o outro sócio, Josuel Santos, 25, conhecido como Zoio, resolveu fazer o teste no cabelo de um ajudante.

No vídeo gravado no dia, o garoto João Vitor mostra os tufos em pé, todos azuis. Mas, ao mover a cabeça, eles de repente ficam vermelhos. O menino sorri enquanto gira na cadeira, o que faz o cabelo trocar de tom: azul, vermelho, azul, vermelho. Feito um giroflex de viatura da polícia.

Publicar as imagens nas redes sociais foi o estopim de uma avalanche de mensagens e alertas. Um amigo perguntava como Josuel tinha feito aquilo. Outro queria saber quanto ele tinha pago para impulsionar a publicação. E cada vez mais gente marcava outros perfis e o saturava com solicitações de amizade. 

Em um mês, o vídeo já teve quase 500 mil visualizações. E decretou o nascimento do penteado, que custa R$ 50 e iria se alastrar pelas periferias, colocando os dois sócios no time de barbeiros que fazem as cabeças das quebradas.

Além das tintas extravagantes e de um relacionamento sério com o laquê, esses cabeleireiros têm mais uma coisa em comum: nunca saem da internet. Tudo vira foto, qualquer coisa é motivo para uma live, e o celular é parte tão fundamental do trabalho quanto a tesoura ou a navalha.

“As redes sociais são a minha vitrine, é onde apresento o que eu faço”, analisa Ariel Franco, 25, que tem quase 240 mil seguidores no Instagram. Foi da sua barbearia, na região da Brasilândia, zona norte de São Paulo, que se espalhou outra das tendências nas madeixas: o blindado.

O penteado é formado por um topete avantajado, mechas bem definidas, cerca de quatro cores e um degradê feito com máquina e navalha nas laterais. Mas a graça não é só entrar na moda. O nome, batizado por um cliente, surgiu porque a melena não desmancha de jeito nenhum. “A gente está procurando o que vai conseguir destruir.”

Vídeos em suas redes mostram o barbeiro amassando o cabelo de clientes e colocando de tudo em cima das cabeças: caixas de som, crianças e até rodas de carros e motos. Mas não importa —o topete sempre volta a ficar em pé.

Por isso, mais do que estilo, o blindado é feito sob medida para viralizar e se transformar em um desses desafios que se propagam online. Tanto que rapidamente se tornou meme, nos quais até o Bolsonaro ganhou o topetão, o que o deixou conhecido fora do país. 

A ideia de Ariel agora é lançar um canal no YouTube com desafios capilares, em que pessoas saltam de paraquedas ou descem de rapel sem desalinhar os fios do blindado.

E, com isso, aumentar cada vez mais a exposição e os virais, que já geram frutos. A barbearia, que cobrava R$ 55 por corte e penteado, aumentou o preço para R$ 80 e sonha em abrir uma filial e até franquias. O cachê de Ariel para ministrar um curso não sai por menos de R$ 8.000.

Valor até então inimaginável para o paulistano, que aprendeu a fazer cortes seis anos atrás, quando estava preso. “Comecei para passar o tempo”, diz. Para isso, afiava tesouras sem ponta e usava lâminas de gilete acopladas a pentes para imitar o efeito das máquinas.

Agora seus clientes não apenas cortam, mas também tiram a sobrancelha, aparam a barba, põem toalhinhas quentes no rosto e fazem limpeza de pele. “O homem está muito mais vaidoso. Ele entendeu que o visual é o principal cartão de visitas”, acredita.

Esse é outro segredo do sucesso das barbearias: os garotos que moram em bairros afastados perderam a vergonha de entrar em um salão. 

“O homem está se cuidando mais do que a mulher. Mas, em vez de cabeleireiro, a gente virou barbeiro para dar um ar mais masculino”, diz Vinicius Rodrigues, 25, que desde 2014 mantém o salão Bom de Corte em Guaianases, extremo leste da capital, onde cobra a partir de R$ 20.

Ele conta que, até poucos anos atrás, moradores tinham preconceito em fazer algo diferente e topavam no máximo uma risca mais ousada. Depois, passaram a pedir desenhos nas laterais. Com os lados liberados, o atrevimento passou para a parte de cima no ano passado —foi quando as cores chegaram e os estilos esculturais tomaram conta.

É o que ele chama de estilo chavoso. “Um cabelo ‘chave’ é todo aquele que desperta a curiosidade”, explica o barbeiro, que já mexeu em cabeças famosas, entre elas as de Mano Brown e MC Lan.

Vestindo óculos espelhados e boné, Vinicius dá uma terceira explicação para a explosão dos penteados. 

“Não é só internet ou vaidade: é identidade. A periferia tinha preconceito com ela mesma, mas agora está se aceitando mais. Tem muito barbeiro dos Estados Unidos e da Europa de olho no que estamos fazendo aqui.”

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.