Descrição de chapéu Artes Cênicas

Casa noturna que foi ilha de liberdade durante a ditadura vira tema de musical

Coreógrafa Deborah Colker dirige 'O Frenético DancinDays', com dramaturgia de Nelson Motta

Maria Luísa Barsanelli
São Paulo

“Vai, trata de ser louca”, diz Deborah Colker da plateia, enquanto coordena as duas dezenas de atores sobre o palco. Figura mignon, a diretora se destaca no ensaio. Mesmo apoiada sobre muletas devido a uma cirurgia no quadril feita há cerca de um mês, ela gesticula, segue os movimentos, muda a expressão emulando os personagens.

É como se seguisse em passos de dança que a tornaram coreógrafa de renome. Mas Colker, que já enveredou pelo circo —foi a primeira brasileira a dirigir um espetáculo do Cirque du Soleil, “Ovo”, agora em temporada no Brasil— e por grandes eventos, como a abertura da Olimpíada do Rio de Janeiro, agora se debruça sobre sua primeira direção de um musical. 

“Eu resisti muito ao convite, achava que não seria a minha praia”, diz ela. “Mas vi que, para mim, tem quase uma metalinguagem. Afinal, numa boate, as pessoas vão dançar. Inevitavelmente eu teria que fazer uma direção coreografada.”

Ela se refere ao tema de “O Frenético Dancin’Days”, retrato da casa noturna que funcionou por quatro meses de 1976 no Rio de Janeiro e se tornou uma ilha de liberdade naqueles anos de ditadura militar.

“Aquele lugar era vital, era a nossa salvação”, diz o jornalista e produtor musical Nelson Motta, que foi um dos sócios da casa e agora assina com Patrícia Andrade a dramaturgia do musical —idealizada por Joana Motta, sua filha. 

The Frenetic Dancing’Days Discotheque (o nome do estabelecimento é todo em inglês tem um ‘g’ a mais do que o título do espetáculo) nasceu de um fracasso. Os sócios vinham de uma derrocada financeira com o festival de música de Saquarema. 

Mas logo Motta recebeu um convite inusitado. Na Gávea, bairro da zona sul então quase todo residencial, estava para abrir um shopping, e o empreendimento buscou o produtor para levantar ali uma casa noturna. Ofereceram o espaço por um período de quatro meses, sem custo de aluguel e construção, já que a ideia era criar um movimento no centro de compras —e a área do Frenetic já tinha um destino futuro, o Teatro dos Quatro. 

“Parece história de novela, mas foi um sucesso tão instantâneo, tão monstruoso, que não só a gente se divertiu, mas também fez dinheiro.”

O local atraiu gente de toda estirpe. “A casa tinha como característica uma liberdade fantástica em plena ditadura, porque tinha gays, héteros, pobres, ricos, pretos, brancos, jogadores de futebol, estrelas da Globo”, diz Motta. “E gente que você não via normalmente dançando numa boate, Maria Bethânia, Milton Nascimento. Pode imaginar?”

Também foi berço do grupo As Frenéticas, formado por garçonetes da casa e que se tornou a principal atração dali, mas o auge veio na última noite. “Foi uma coisa épica, as pessoas choravam. Mas ninguém se lembra muito bem, porque eram tantos excessos!”

Para um espaço peculiar, Motta diz que buscou um jeito diferente de contar a história . Em vez de uma linguagem próxima da Broadway, ele bebeu em referências bastante brasileiras, do teatro de revista às chanchadas da Atlântida.

“Há tantas lendas sobre a boate, quando li o texto quis fazer uma coisa meio sitcom, meio conversa de bar”, diz Colker sobre o clima despojado que buscou para o musical.

“E quis uma coisa orgânica. Nada desse negócio de parar para cantar, depois parar para dançar. É tudo uma coisa só, tudo é movimento. Acho que essas fronteiras têm que se invadir, cada vez mais as linguagens têm que promiscuir.”

O Frenético Dancin’Days

  • Quando Sex. e sáb., às 21h, dom., às 18h. De 15/3 a 26/5
  • Onde Teatro Opus - shopping Villa-Lobos, av. das Nações Unidas, 4.777
  • Preço R$ 75 a R$ 170
  • Classificação 12 anos
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