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Coletânea de Quino mostra a habilidade em não marcar época

'Isto Não é Tudo' é um 'best of' dos 15 ou mais álbuns que o cartunista lançou entre 1960 e 1990

O cartunista Quino e Mafalda, sua famosa personagem - Eloy Alonso/Reuters

Isto Não é Tudo

  • Preço R$ 89,00 (528 págs.)
  • Autor Quino
  • Editora Martins Fontes – Selo Martins
  • Tradução Magda Lopes

Uma diferença que se coloca entre os termos charge e cartum é que a charge se refere ao desenho de humor que comenta uma situação de momento, específica, como uma notícia. O cartum, por outro lado, quer ser atemporal: comenta o cotidiano, a existência, a ironia geral.

Quino é um dos cartunistas mais célebres na América Latina por se esforçar pelo atemporal —apesar de deixar entrever, nos temas e no próprio traço, o lugar e época das suas criações. Sua tira “Mafalda” vez por outra comentava notícias dos anos 1960 e 1970, quando foi publicada originalmente, mas era algo raro. É um dos motivos pelos quais ainda é lida.

"Isto Não é Tudo" é uma coletânea de cartuns nos quais Quino não quis marcar época. Uma cooperação elementar dos editores ajuda: não há informação alguma sobre datas dos cartuns. O título astucioso também sugere que Quino —hoje com 86 anos— segue desenhando.

O volume é um best of dos 15 ou mais álbuns de cartuns que o autor lançou entre os anos 1960 e 1990, já publicados no Brasil. Os cartuns selecionados foram agrupados por temas: casamento, trabalho, terceira idade, restaurantes, médicos, burocratas, ricos e pobres etc.

O agrupamento causa um efeito estranho. Apesar de o traço denunciar que cada cartum é de período ou publicação diferente, juntos eles parecem denunciar ideias fixas de Quino: esposas obesas, traição conjugal, suicídio. Piadas ou ideias gráficas repetem-se lado a lado, embora tenham sido utilizadas (provavelmente) com décadas de distância.

Em julho de 2018, Quino solicitou que Mafalda não fosse utilizada como símbolo da campanha anti-Lei do Aborto na Argentina. Não deixou claro, porém, se ele —ou Mafalda— era a favor da lei (que não foi aprovada).

Um dos cartuns de "Isto Não é Tudo" mostra uma professora enlouquecida, carregada por um enfermeiro e uma freira enquanto os alunos indomáveis destroem a sala. A professora diz: “Sim, siiim ao aborto!! Aborto obrigatório!! Isso: Aborto geral, em massa, absoluto, global!!”

Na declaração e no cartum, Quino exerce sua habilidade de ficar em cima do muro. Faz parte do esforço de ser atemporal não se posicionar quanto aos assuntos do dia. Não se vê declarações políticas, nem levantar bandeiras. Não com clareza, pelo menos; há espaço para refutar qualquer interpretação.

Por outro lado, o próprio se denuncia, no mínimo, humanista. Em outro cartum, um agente da “polícia humorística” interroga Quino na prancheta: “A morte, a velhice, a injustiça social, o autoritarismo… Esses são temas humorísticos, segundo o senhor?” O policial leva Quino algemado.

Se os temas não têm data, o traço tem. Poucos cartunistas atuais dedicam-se às finíssimas hachuras e ao detalhamento de cenários e indumentária que Quino mostra em várias páginas. Não é que os cartunistas de hoje tenham ficado preguiçosos: os tempos atuais provavelmente pedem menos linhas, mais velocidade, para um passar de olhos efêmero do leitor.

Não se sabe se Quino tinha mais tempo para dedicar a cada página nem se estava pensando na posteridade. O fato é que produziu cartuns eternos.

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