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Com vendas pela Amazon, nova editora vai publicar clássicos com roupagem pop

Antofágica tem acordo de exclusividade com site americano e estreia com tradução de Kafka

Ilustrações de Lourenço Mutarelli para a nova edição de

Ilustrações de Lourenço Mutarelli para a nova edição de "A Metamorfose", de Franz Kafka, que sai pela editora Antofágica Lourenço Mutarelli/Divulgação

Maurício Meireles
São Paulo

Em um mercado que atravessa sua crise mais profunda da última década, é um movimento improvável que novas editoras surjam. Mas é o que tem acontecido. Novas iniciativas despontam, lideradas por figuras que deixaram grandes casas por vontade própria ou por força das inúmeras demissões que se tornaram comuns.

Depois da Ubu e da Todavia —tocadas por editores da Cosac Naify e da Companhia das Letras, respectivamente—, uma nova editora chega agora ao mercado, a Antofágica, com um catálogo focado exclusivamente em clássicos ilustrados.

O publisher da nova casa é Daniel Lameira, ex-editor da Aleph e da Intrínseca. O investidor da empreitada é o advogado carioca Sérgio Drummond, dono de uma coleção de clássicos da literatura formada por 30 mil exemplares. Sócio da Antofágica ao lado do seu filho, Rafael Drummond, ele deve participar do dia a dia de todas as áreas da editora. O conteúdo digital será produzido por Luciana Fracchetta.

A ideia é editar clássicos —muitas vezes vistos sob um viés erudito, até no tratamento gráfico— e revesti-los de uma forma pop. São dez lançamentos previstos para este ano.

Os dois primeiros são “A Metamorfose”, de Kafka, com tradução de Petê Rissatti e ilustrações Lourenço Mutarelli, e uma nova edição de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, com ilustrações feitas por Portinari para uma tiragem de colecionador em 1940.

Apesar dos livros de estreia, a ideia não é só editar títulos em domínio público, mas também ir atrás de autores em outras editoras ou de clássicos esquecidos.

Nessa linha pop, por exemplo, será possível encontrar um clássico com textos de apoio tanto de um crítico literário de prestígio quanto de um youtuber, diz Lameira.

“Há um movimento de declínio de um modelo que estava posto no mercado editorial, de ocupar espaço em livrarias e investir muito em ponto de venda. Isso está degringolando. Mas editoras que conseguem falar com o leitor e colocar o livro dentro de uma experiência maior de consumo estão indo muito bem”, afirma ele, citando a Aleph e a Darkside Books, ambas com forte apelo entre o público nerd.

A Antofágica nasce com um acordo de exclusividade com a Amazon e é a segunda editora, depois da Pipoca & Nanquim, a fazê-lo —fato que mostra parte da estratégia de expansão da empresa americana no país, diante da crise da Saraiva e da Livraria Cultura.

Vale dizer que essa exclusividade se refere ao grande varejo, e livros da Antofágica poderão ser vendidos em redes menores ou livrarias de bairro.

“Desde o acordo com a Cosac Naify [após o fim da editora, em 2015], temos buscado acordos de exclusividade. Não consideramos as livrarias menores competidores diretos, para nós não acrescentaria nada que eles não tivessem os livros”, diz Mário Meirelles, gerente-geral para livros da Amazon no Brasil.

A principal diferença é que a Amazon, diferentemente das redes nacionais, não trabalha com consignação, o que permite a uma editora ter não só um fluxo de caixa mais previsível, mas também as tiragens —​afinal, cada leva de impressões já pode nascer vendida, com um risco menor de encalhe.

Com um sistema de análise de dados robusto, pelo qual é possível analisar o comportamento dos consumidores de cada segmento, a empresa americana também viabiliza um planejamento mais concreto de cada lançamento.

Meirelles diz, por exemplo, que ao identificar a demanda por uma edição em capa dura de um determinado título, a Amazon pode propor às editoras um novo lançamento — ou, em outros casos, propor o crescimento da tiragem inicialmente prevista.

Como livraria online não tem prateleiras, um acordo do tipo também garante que a Amazon vai ativar seus canais de divulgação. “Esse segmento [de clássicos] cresceu na Amazon desde o início. Acho que ele tem um volume [de vendas] por causa da qualidade. Os clássicos vão estar sempre vendendo. A Amazon é uma empresa de catálogo, nós dependemos muito pouco dos grandes títulos”, diz Meirelles.

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