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Dia de caos do pai futebolista inspira HQ do premiado Marcello Quintanilha

Páginas coloridas de 'Luzes de Niterói' tratam das origens fabris do futebol brasileiro

Imagem do livro 'Luzes de Niterói', HQ de Marcello Quintanilha
Imagem do livro 'Luzes de Niterói', HQ de Marcello Quintanilha - Divulgação
Ramon Vitral
São Paulo

Entre as memórias mais antigas de Marcello Quintanilha estão lembranças de infância na década de 1970 relacionadas ao seu hábito de leitura de tiras de jornais, como os trabalhos de Vincent T. Hamlin para a série "Brucutu" e as aventuras do detetive Dick Tracy, de Chester Gould.

Outra dessas lembranças mais distantes diz respeito a um jogo de futebol. Ele ainda criança, as luzes de casa misteriosamente apagadas e uma transmissão de rádio com o timbre transistorizado da voz do jornalista Jorge Curi (1920-1985) narrando uma partida.

Os eventos descritos no álbum "Luzes de Niterói" se passam muito antes dessas lembranças, mas reiteram a proximidade do quadrinista brasileiro contemporâneo mais renomado internacionalmente com o mundo do futebol.

 
O quadrinho trata de fatos ocorridos nos anos 1950, quando o autor ainda não era nascido. A história é inspirada livremente em um dia caótico na vida do pai dele, Hélcio Carneiro Quintanilha, na época beque direito em início de carreira. Na obra, ele acabou de deixar o Manufatora Atlético Clube para o Canto do Rio Foot-Ball Club, clubes de Niterói, cidade natal do quadrinista.

“A coluna vertebral da HQ é integralmente baseada no que ouvi sobre esse dia, assim como toda a atividade intramuros do cotidiano dos jogadores”, conta o artista, hoje residente em Barcelona e dono de um troféu do tradicional Festival de Angoulême por seu trabalho em "Tungstênio" (2014), quadrinho adaptado para o cinema no ano passado por Heitor Dhalia.  

As 240 páginas coloridas de "Luzes" chegam ao Brasil poucos meses após a publicação da obra na França e em Portugal e mostram o dia em que Hélcio e o amigo Noel decidiram aproveitar o flagrante de uma pesca ilegal com dinamite na baía de Guanabara para recolher peixes e revendê-los em uma feira.

Para o sucesso da empreitada, era primordial que ela fosse rápida e prática, garantindo que o jogador chegasse a tempo da concentração de sua equipe para uma partida no dia seguinte, contra o Vasco da Gama.

Em meio a mergulhos cada vez mais profundos e perigosos, há um tenso encontro dos dois amigos com os nudistas da ilha do Sol -primeira colônia nudista da América Latina, comandada pela lendária dançarina, atriz e escritora Luz del Fuego. A dupla ainda precisa sobreviver a uma tempestade que põe em risco suas vidas e a amizade construída ao longo de anos.

"Luzes de Niterói" tem como pano de fundo o mesmo universo dos subúrbios fluminenses que serviram de cenário para as primeiras histórias do autor e para o aclamado "Talco de Vidro" (2015).

Ele também retoma o futebol como tema central do quadrinho. "Fealdade de Fabiano Gorila", seu primeiro livro, lançado em 1999, mostrava um jovem jogador retornando para Niterói após um teste cancelado no Fluminense em seguida ao suicídio de Getúlio Vargas, outra história inspirada nas experiências futebolísticas do pai dele.

“O futebol é apenas mais um item no imenso catálogo de temas que jamais encabeçaram gêneros na ficção brasileira, a ponto de serem exauridos, posteriormente redescobertos e reinventados segundo novos parâmetros, partindo de um arcabouço consistente de histórias serializadas formado ao longo do tempo”, diz Quintanilha.

Já em relação a uma suposta retomada de temas caros a ele, o autor é enfático: “Não se pode voltar ao que nunca se deixou para trás”. Mesmo morando há décadas na Europa, a Niterói e o Rio de Janeiro do passado dele e do pai nunca saíram de seu imaginário.

“O aspecto da região foi se solidificando mais e mais para mim à medida que seus componentes iam dando adeus cotidianamente, dizimados pela locomotiva do progresso à medida que as fábricas iam fechando as portas, as vilas operárias sendo descaracterizadas, os campos de futebol, loteados”, lamenta o artista.

Uma das intenções de Quintanilha foi enfatizar o que ele chama de “mito do futebol brasileiro oriundo das fábricas”. Assim como o Manufatora nasceu dentro da Cia. Manufatora Fluminense de Tecidos, no bairro niteroiense de Barreto, o tradicional Bangu surgiu a partir da Fábrica de Tecidos Bangu, sendo as equipes fabris essenciais para a popularização do futebol no Brasil do início do século 20.

Quintanilha também rebate a ideia de retomada de temas ao explicar seu modo de produção “absolutamente anárquico”, no qual ele não se dedica exclusivamente à produção de um único trabalho por vez.

“Posso estar ocupado em vários projetos ao mesmo tempo, com vários registros distintos, de modo que tudo é fruto de um fluxo constante de atividade. Álbuns que tenham sido publicados antes não necessariamente começaram a ser produzidos primeiro."

Leitores familiarizados apenas com os três álbuns mais recentes do artista ("Tungstênio", "Talco de Vidro" e a coletânea de histórias curtas "Hinário Nacional") terão seu primeiro contato com uma HQ colorida do autor. Ele diz que se propôs criar uma combinação limitada de cores, “nostálgica, mas não necessariamente vintage”, por isso o predomínio de tons chapados de verde, azul e roxo.

Entre os elementos habituais de trabalhos prévios presentes em "Luzes" há a utilização pontual de seu característico narrador onisciente. Dessa vez, a voz em terceira pessoa é inserida em uma das sequências mais tensas do livro, em um dos mergulhos mais profundos de Hélcio durante seus instantes recolhendo peixes na companhia de Noel.

Também estão presentes os diálogos realistas, repletos de coloquialismos e oralidades e os quadros completamente desalinhados na composição das páginas -uma marca do autor que parte da percepção dele da construção de uma história em quadrinhos.

"Isso decorre do propósito de reforçar o quadro como unidade narrativa, em oposição à ideia de que esta unidade esteja sujeita à página, prescindindo dela como marco rítmico da leitura."

Luzes de Niterói 
Autor: Marcello Quintanilha. Editora: Veneta. R$109,90 (232 págs.)

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