Descrição de chapéu Artes Cênicas

Diretor franco-marroquino trabalha com atores amadores por ato político

Com dois trabalhos na MITsp, El-Khatib afirma que sua forma de atuação dá voz às pessoas

Maria Luísa Barsanelli Lucas Neves
São Paulo e Paris

​Mohamed el-Khatib foi parar no teatro meio ao acaso. Formado em ciências políticas, o francês de origem marroquina só descobriu o gosto pelas artes cênicas quando trabalhou numa associação de auxílio a crianças carentes, organizando atividades culturais.

​Foi aprendendo na prática a metodologia do palco, mas logo entendeu que não se interessava pela linguagem tradicional do teatro. “Fiz uma primeira peça, ‘À L’Abri de Rien’ (protegido de nada), num estilo clássico, mas não fiquei feliz com o resultado”, explica o diretor, 38. “Tinha a impressão de fazer um exercício de estilo para divertir pequenos-burgueses. Não é o jogo de atores que me interessava, mas a possibilidade de viver ou compartilhar uma experiência.”

​Foi sua própria experiência, por sinal, que ajudou a definir sua linguagem. “Partir com Beleza”, espetáculo que o diretor apresenta na MITsp   Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, é baseado na perda de sua mãe.

Espetáculo "Partir com Beleza", do franco-marroquino Mohamed El Khatib
Espetáculo "Partir com Beleza", do franco-marroquino Mohamed El Khatib - Divulgação

​El-Khatib tinha por hábito fazer registros em áudio e imagens do cotidiano à sua volta. Quando a mãe adoeceu de um câncer, decidiu gravar tudo o que podia dela.

“Logo depois que ela morreu, fui escutar e ver o que tinha registrado. E foi aí que me dei conta do assunto da peça, de discutir como é acompanhar alguém que está morrendo. É um tema tabu na França.”
A dificuldade, diz o encenador, também estava no tratamento dos médicos.

“Eles são formados para dar diagnósticos técnicos, mas têm muita dificuldade em ser sinceros com quem vai morrer. Durante os dois anos em que minha mãe esteve doente, eles jamais diziam a palavra ‘câncer’, apenas ‘doença hepática’. Eles se refugiam em termos técnicos assim.”

No espetáculo, o diretor entra em cena sozinho, sem grandes recursos cênicos, munido apenas dos registros que fez da mãe. Fala do luto, da perda da língua materna (era apenas com ela que gastava seu árabe), mas lida com tudo de uma forma leve, com humor. Foi um tanto influenciado por uma viagem à Cidade do México feita pouco antes do processo da peça.

“Cheguei no Dia dos Mortos, e a festa me impressionou. Não tem nada a ver com a França, onde isso é tratado de forma fria. No México é vívido, há uma verdadeira reconciliação com os mortos. Na Europa não temos mais rituais, e acabamos numa solidão.”

Também há resquícios das obras documentais e personalistas de Alain Cavalier e Sophie Calle, grande influência para El-Khatib. 

“São artistas que não se refugiam na ficção, eles arriscam”, afirma o diretor, que encontrou certa resistência da família por mostrar algo tão pessoal em cena. “Mas eu acredito que é algo que precisa ser compartilhado.”

E não são apenas as dores próprias que El-Khatib partilha. Em “C’est la Vie”, põe em cena dois intérpretes a contar a história real da perda do filho. O espetáculo, que dentro de um projeto de intercâmbio dramatúrgico da MITsp ganhará tradução ao português, terá uma leitura dramática na mostra, com atores brasileiros. 

Mas o diretor afirma que é uma experiência muito diferente daquela com o elenco francês, que de fato experienciou a morte do filho —a montagem original deve ser encenada no Rio de Janeiro ainda neste ano.
Afinal, desde que colocou em cena uma faxineira para narrar sua própria história (“Moi, Corinne Dadat”, de 2014), El-Khatib não utiliza mais atores profissionais em seu trabalho. 

“É uma liberdade trabalhar com amadores, que não estão pré-formatados. Mas é também um ato político, de dar voz a essas pessoas.”

Assim como sua dramaturgia documental. “Pra me sentir mais próximo do assunto de que escrevo, preciso efetivamente de um trabalho documental. Não nos perguntamos o suficiente sobre a utilidade das peças de teatro. Se uma peça só serve para deixar todo mundo feliz, mas sem questionar nada em nossa ordem, não cumpre função alguma. A ficção é confortável demais, evita que se corra risco.”

Partir com Beleza
Casa do Povo, r. Três Rios, 252. Ter. (19) e qui. (21), às 20h e 22h, qua. (20), às 18h, 20h e 22h. Ingr: R$ 40. 10 anos

C’Est la Vie
Itaú Cultural, av. Paulista, 149. Leitura com Marat Descartes e Isabel Teixeira. Sex. (22), das 9h30 às 12h30. Grátis

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