Descrição de chapéu Crítica Cinema

Documentário sobre eleição estudantil mostra semente da política adulta

'Eleições' acompanhar chapas que disputam o grêmio estudantil de uma escola pública de São Paulo

Inácio Araujo

Eleições

  • Classificação 12 anos
  • Produção Brasil, 2018
  • Direção Alice Riff

“Eleições” é um documentário de “cinema direto”, categoria que Robert Drew celebrizou com “Primárias” (1960) e mais tarde deu a João Moreira Salles talvez o seu filme mais relevante: “Entreatos” (2004).

A empreitada de Alice Riff é mais modesta, mas, de certa forma, mais complexa. Trata de acompanhar as quatro chapas que disputam a eleição para o grêmio de uma escola pública da cidade de São Paulo, a E.E. Dr. Alarico Silveira.

Eleições, sabemos, são eventos emocionais. Mas, quando se trata de um grupo de adolescentes, algo soa diferente: participar dela, concorrendo ou votando, é também uma forma de experimentar, talvez pela primeira vez, a cidadania, desenvolver opiniões, conviver com diferenças, informar-se sobre procedimentos, descobrir o que reivindicar (e o que seria da alçada de um grêmio estudantil), assumir responsabilidades. Em resumo: trata-se de crescer, de tatear o mundo pelo conhecimento.

Um filme desse tipo permite várias abordagens. Podemos ficar, e talvez não seja mau, com certas notações, com rápidos momentos que definem essa vida em comum captados pelo filme.

O primeiro: um jovem abertamente homossexual conta que tentou ir ao banheiro dos homens, mas foi impedido por um colega que lhe ordenou usar o das mulheres. O jovem é um dos articuladores da chapa Diversidade, que, como o nome dá a entender, reúne brancos, negros, mulheres, gays, ambientalistas. São contra discriminações, mas, se existem outros atos de discriminação claros, além do descrito, não chegam ao filme. De modo geral, os alunos são bem avançados nesse aspecto.

O segundo: a campanha começa por um debate mais que civilizado, mas descerá a níveis quase tão lamentáveis quanto os da política adulta. Há quem rasgue as cartelas publicitárias de outra chapa; há quem comece a fazer promessas em excesso; busca-se aqui e ali reivindicar algo junto à diretoria (que, por sinal, dispõe de verbas para lá de ridículas para a manutenção dos equipamentos).

O fato a notar diz respeito ao ato de vandalismo praticado por uma das chapas —para fazer propaganda, picha as paredes da escola com spray. Aqui descemos ao nível das campanhas políticas adultas, vamos dizer assim. Pode-se aprender muito na escola, mas os ecos do mundo exterior chegam a ela.

O terceiro: o papel de diretora é, francamente, o mais ficcional (sempre existe algo de ficcional em documentários). A diretora tem de prestar contas aos alunos, mas sabe que pode ser vista pelo adjunto, pelo secretário, pelo governador...

Trata-se de uma esforçada senhora emparedada por todos os lados, a dizer, por exemplo, que o melhor que os alunos podem fazer pela escola é estudar. Ok. Ela se perde um pouco quando diz aos estudantes que a discussão do currículo escolar não lhes diz respeito —supressão de filosofia, sociologia, música etc. os deixa um tanto inconformados.

Mas então diz respeito a quem?

O quarto: não se vive mais sem o apelo midiático. Duas repórteres relatam os acontecimentos, buscam resumi-los em transmissões por internet. É claro que num ambiente restrito isso não tem sentido informativo. Mas é como se, para existir, o fato hoje precisasse ser relatado e demonstrado midiaticamente.

O quinto: revela-se que uma das chapas, chamada Identidade, tem ligações com uma igreja evangélica. O líder nega com veemência: apenas o logotipo foi inspirado no de uma igreja. Talvez o rapaz não seja tão sincero assim.

Pouco depois ele surge propondo que se toque música gospel na escola. Diz que seria a canção entre outras —quem quisesse poderia tocar músicas de suas confissões também. Ele é bem articulado, mas algo incômodo se mostra: sua chapa é uma investida neopentecostal em busca de poder já nos grêmios estudantis.

Ressalte-se: ao narrar essa disputa de poder que envolve grupos religiosos, feministas, ambientalistas etc., “Eleições” nos leva a um microcosmo que, de certo modo, representa a diversidade de visões existente no Brasil (porém num grau de civilidade e tolerância bem mais suportável). Esse é o centro nada desprezível do projeto de Alice Riff, que o conduz com firmeza admirável.

Pois existe aqui, ainda, o imenso desafio de apresentar ao menos quatro visões de mundo, incipientes talvez, porém bem demarcadas. Nesse sentido, se o filme tivesse mais uma hora, talvez as divergências ficassem mais claras.

Resta que o filme satisfaz inteiramente o seu ambicioso projeto. Ele mostra uma situação —bem complexa, no caso—  e expõe seus protagonistas, mas nunca os julga.

Cada um que tire suas conclusões: sobre a escola, a adolescência, a educação, a cidadania, a tolerância, o que for. Um belo exercício de cinema direto, enfim.

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