Descrição de chapéu Artes Cênicas

Diretor suíço coqueluche do teatro europeu debate a violência em peças

Milo Rau abre a sexta edição da MITsp - Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, festival em que apresenta três espetáculos

6ª MITsp - Mostra Internacional de Teatro de São Paulo. Espetáculo “A Repetição. História(s) do Teatro (I)”, peça do diretor suíço Milo Rau

Cena do espetáculo “A Repetição. História(s) do Teatro (I)”, peça do diretor suíço Milo Rau que a bre a 6ª MITsp Hubert Amiel/Divulgação

Maria Luísa Barsanelli
São Paulo

O teatro de Milo Rau é repleto de uma violência crua. Em “A Repetição”, o diretor suíço reserva 20 minutos de uma dura cena de tortura para recriar um crime por homofobia; coloca crianças no palco numa discussão sobre a pedofilia em “Cinco Peças Fáceis”; e relê imagens de guerras em “Compaixão. A História da Metralhadora” e noutros tantos trabalhos.

“Não sei bem o porquê desse interesse. Não tenho traumas de infância, cresci em Berna, um lugar nada violento”, ri ele durante entrevista. 

“Mas a história do teatro, desde as tragédias, está repleta de violência. A sociedade ocidental é construída sobre a violência, tem obsessão em contar histórias assim. Então, em minhas peças, busco questionar a violência estrutural, por que ela acontece e como podemos lidar com ela.”

Rau, 42, vem chamando a atenção no circuito europeu com seu trabalho à frente do coletivo multimídia International Institute of Political Murder (instituto internacional de assassinato político), no qual encenou os tribunais da banda de punk russa Pussy Riot e do ditador romeno Nicolae Ceausescu. 

Mas causou especial burburinho em julho passado no Festival de Avignon, na França, com “A Repetição”, baseado num caso real: o assassinato de Ihsane Jarfi, jovem gay que foi torturado e morto há sete anos por um grupo de garotos em Liège, na Bélgica.

A montagem abre, na próxima semana, a sexta MITsp - Mostra Internacional de Teatro de São Paulo. É um dos três trabalhos que o encenador, artista em foco desta edição, apresenta no festival. 

Também integram a grade “Cinco Peças Fáceis”, baseado no caso do belga Marc Dutroux, que nos anos 1990 sequestrou e violentou uma série de crianças, e “Compaixão”, olhar crítico sobre a colonização europeia da África.

São todas exemplos do que o diretor chama de seu metateatro, peças que discutem o próprio fazer artístico. “A Repetição” é a primeira parte de História do Teatro, série de dez peças, com curadoria de Rau, que buscam entender os mecanismos cênicos —as próximas terão direção do congolês Faustin Linyekula e da espanhola Angélica Liddell.

Para recriar o assassinato de Jarfi, o diretor suíço inicia o espetáculo como uma audição com o elenco. Coloca os atores a falarem diante de câmeras sobre sua relação com o fazer teatral. Só depois encena o crime e inicia um questionamento de como representar a violência —com cenas fortes, que a crítica francesa chamou de extremamente poderosas e quase insuportáveis.

Rau partiu de uma pesquisa profunda. Entrevistou a família da vítima, foi duas vezes à prisão conversar com um dos assassinos, falou com a mulher de outro, leu a papelada sobre o crime. Fez algo bastante similar no processo de “Cinco Peças Fáceis”. Mas não considera que suas peças sejam documentários dos casos. 

“Eu parto desse processo de entrevistas, mas no final quero a possibilidade de ficcionalizar tudo, é a minha versão da história. Eu não acho que o teatro possa representar fatos.”

Ao mesmo tempo, diz, são peças que discutem a verdade. “O que é mais verdadeiro no teatro, representar o realismo ou sentir de verdade? Aí descobrimos que são as duas coisas ao mesmo tempo.”

Sua busca pela verdade cênica se dá também na escolha do elenco. Rau gosta de mesclar em cena “os melhores atores de nosso tempo” e intérpretes amadores. “Quero ver como eles trabalham juntos, se ajudam. Essa solidariedade entre eles é muito tocante.”

Em “Cinco Peças Fáceis”, dá a um elenco infantil a tarefa de investigar os crimes de um pedófilo —as crianças tiveram acompanhamento psicológico durante todo o processo.

“Elas não têm noção do que tudo isso significa, mas o público está nas mãos delas. Elas contam esses casos horríveis, veem o efeito que isso tem na plateia e é como se olhassem para gente, enquanto choramos, piscassem o olho e dissessem: vocês estão sofrendo, mas nós estamos bem. Porque, para eles, a história é como um conto de fadas, aconteceu há muito tempo.”

 

É tamanha a busca de Rau por sua verdade que no ano passado, tão logo assumiu a direção do Teatro Nacional de Gent, na Bélgica, criou um manifesto para guiar as criações da casa, inspirado no que o movimento Dogma 95 fez para o cinema nos anos 1990.

“Eu achava que o teatro europeu estava ficando muito operístico. Perdendo a vida, a relevância e ficando cada vez mais complexo. Queria nos libertar de tudo isso. Focar a história, os atores e a emoção.”

No manifesto, Rau bane textos puramente clássicos (o original não pode representar mais de 20% do produto final), diz que é preciso ao menos dois atores amadores em cada produção (“animais não contam, mas são bem-vindos”) e que pelo menos uma peça por temporada deve ser ensaiada ou apresentada numa zona de conflito —o que ele fará com sua adaptação da tragédia “Oresteia”, que estreia em Mossul, no Iraque, logo após passar pelo Brasil.

“Eu estive em Mossul várias vezes, conheci bem o lugar. É perigoso, porque você nunca sabe o que pode acontecer. Mas para mim é mais interessante investir esse dinheiro lá, e fazer uma grande diferença na região, do que na Europa. É uma questão de ampliar nossa rede. Queremos nos restringir ao círculo artístico ou estamos dispostos a nos abrir?”

Seus ideais cênicos, contudo, acabaram lhe rendendo a fama de controverso e provocador. No ano passado, para fazer “Lam Gods”, uma recriação da cena bíblica do retábulo de Gent, foi atrás de versões modernas de Adão, Eva e também de cruzados.

Foi então que decidiu publicar anúncios de jornal procurando jihadistas. Causou um quiproquó com as autoridades e, no fim, conseguiu colocar em cena a mãe de um integrante do Estado Islâmico que morrera pouco antes.

“Queria pessoas que contassem suas próprias histórias. Mesclar a verdade da técnica [dos atores profissionais] com a verdade das histórias.”

Mas a controvérsia, diz Rau, não é apenas uma tentativa de polemizar. “Eu mostro a violência de forma provocativa para retratar o que ela realmente significa, para entender a violência estrutural”, diz.

“De certo modo, a homofobia de ‘A Repetição’ e a pedofilia de ‘Cinco Peças Fáceis’ são a mesma coisa. São todas violências sexuais, são um problema de retóricas fascistas.”

O diretor é especialmente crítico à ascensão conservadora nos Estados Unidos e no Brasil. No ano passado, ele e seus colegas escreveram uma carta expressando repúdio à possível eleição de Jair Bolsonaro à Presidência.

A vitória, disseram à época, “seria uma catástrofe para o Brasil e um mau sinal para o mundo inteiro. Bolsonaro é o candidato do desprezo e das notícias falsas. Ele ameaçou mulheres de estupro, quer reeducar homossexuais e glorifica a tortura da ditadura”.

“Na Europa, olhamos para o Brasil e não entendemos nada do que está acontecendo”, diz Rau. “Vocês tiveram uma ditadura militar, no clássico estilo fascista, e pensamos que esse pensamento nunca voltaria. Mas, nesse contexto, é muito importante que a cultura lembre a todos que a história não pode se repetir.” 

A Repetição. História(s) do Teatro (I)
14/3, às 20h (para convidados) e 15 e 16/3, às 21h, no Auditório Ibirapuera, av. Pedro Álvares Cabral, portão 2. Ingr.: R$ 30. 16 anos

Cinco Peças Fáceis
19 a 21/3, às 19h, no Teatro Sérgio Cardoso, r. Rui Barbosa, 153. Ingr.: R$ 40. 12 anos

Compaixão. A História 
da Metralhadora
20 a 22/3, às 21h, no Sesc Vila Mariana, r. Pelotas, 141. Ingr.: R$ 40. 16 anos

 

Outras peças da MITsp

‘O Alicerce das Vertigens’, do congolês Dieudonné Niangouna
15 a 17/3, no Sesc Pinheiros

‘Altamira 2042’, dirigida por Gabriela Carneiro da Cunha
19 a 21/3, no Centro de Referência da Dança

‘A Boba’, de Wagner Schwartz
17 a 19/3 e 22 a 24/3, no Teatro Cacilda Becker

‘Democracia’, dirigida por Felipe Hirsch
18 a 20/3, na Faap

‘Mágica de Verdade’, do grupo inglês Forced Entertainment
19 a 21/3, no Sesi

‘Manifesto Transpofágico’, de Renata Carvalho
20 a 22/3, na Biblioteca Mário de Andrade

‘MDLSX’, da italiana Silvia Calderoni
22 a 24/3, no Teatro João Caetano

‘Paisagens para Não Colorir’, dirigida pelo chileno Marco Layera
20 e 21/3, às 19h, no Teatro Porto Seguro

‘Partir com Beleza’, do franco-argelino Mohamed El Khatib
19 a 21/3, na Casa do Povo

Ingr.: entre grátis e R$ 40, em mitsp.org

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