Festival de cultura no Texas vira debate político sobre comunicação na era Trump

SXSW foi palco do maior encontro de candidatos presidenciais ocorrido até agora nas eleições de 2020

Jason Stanford
Austin (Texas)

As pessoas geralmente vão ao South by Southwest, que acontece anualmente em Austin, Texas, para descobrir uma banda nova, assistir à première de um filme ou inteirar-se das tendências tecnológicas mais recentes. Mas neste ano o SXSW foi palco do maior encontro de candidatos presidenciais ocorrido até agora nas eleições de 2020, e a nova grande ideia a sair de Austin é que pode haver uma maneira de comunicar-se com o público que seja melhor do que insultar as pessoas pelas redes sociais.

A senadora Amy Klobuchar, democrata do Minnesota, fala com Kara Swisher no South by Southwest (SXSW) - Sergio Flores/Reuters

Em uma sucessão de debates realizados no fim de semana em Austin, candidatos presidenciais discutiram não apenas questões políticas diversas mas também o maior desafio da política na era de Trump —como elevar o discurso público, ou pelo menos começar a fazê-lo, quando é o presidente quem controla o ciclo de notícias. Cada candidato ofereceu conselhos diferentes a todos, não apenas candidatos políticos, que estão querendo divulgar sua mensagem.

Não morder a isca

A senadora Amy Klobuchar, democrata do Minnesota, comentou como pretende combater os ataques negativos que qualquer candidato pode prever em 2020.

“Você tem que escolher seus momentos”, ela disse, observando que, em 2016, Hillary Clinton parecia ficar constantemente respondendo à campanha de Trump. “Me pareceu que, pelo fato de mergulharmos em cada toca de coelho que apareceu, perdemos de vista nossa agenda política otimista.”

“É preciso focar as questões que você quer destacar. Escolher quais as batalhas que você quer travar. Não reagir a cada tuíte”, ela explicou, mas ressalvou que, quando você é o fizer, “é preciso lançar mão do humor”.

Contar uma história

O momento mais dramático do fim de semana foi, inesperadamente, uma história sobre um estudo acadêmico sobre falência. A senadora democrata Elizabeth Warren, do Massachusetts, estava tentando ilustrar como as pessoas se culpam pelo fracasso quando enfrentam obstáculos econômicos e contou como ficou sabendo que “as pessoas desabafam suas mágoas nesses formulários para descrever sua própria estupidez”. Relatada com detalhes e humor caloroso, a história dela deixou a plateia fascinada. O silêncio no recinto foi tão grande que o som mais alto, tirando a voz pausada da senadora, era do ar condicionado. Apresentando argumentos calcados na emoção, Warren conseguiu defender reformas financeiras de modo muito mais eficaz do que teria conseguido se tivesse lançado mão de documentos oficiais.

Não confundir uma conversa com uma discussão

Um grande erro cometido por muitos políticos é pensar que para comunicar-se bem é preciso que seus argumentos sejam comprovados como tendo base. O prefeito democrata de South Bend, Indiana, Pete Buttigieg, se deu conta dessa falácia quando conversou com uma família que perdeu um filho em um tiroteio envolvendo policiais. “Eu me atolei em questões técnicas de procedimento policial, mas então entendi que o importante ali não era se eu tinha ou não razão”, ele disse. Em vez disso, ele pensou nas necessidades emocionais da família e criou uma conexão com ela. “Sou um sujeito racionalista, mas entendo que a razão só pode nos levar até certo ponto, especialmente quando exercemos um cargo público.”

O que é importante não é você

Julián Castro, ex-prefeito democrata de San Antonio, Texas, e secretário de Habitação e Desenvolvimento Urbano na administração de Barack Obama, acha que as campanhas políticas poderiam fazer um uso melhor das redes sociais. “Eu queria que houvesse maneiras mais criativas de lançarmos luz sobre as pessoas às quais servimos”, ele explicou. “O formato comum é ‘olhem para mim, vejam o que estou fazendo’. Precisamos fazer a transição para ‘vejam o que está acontecendo aqui, vejam a história deles, é por isso que precisamos fazer x, y e z’. Em outras palavras, voltar a câmera na outra direção, para as pessoas que estamos tentando servir. Muito disso tem sido feito de uma maneira que leva informações ao eleitor, e isso é ótimo. Mas há uma oportunidade perdida de voltar os holofotes para as próprias pessoas que estamos tentando servir.”

Evitar rótulos

John Hickenlooper, o governador democrata do Colorado, não quer responder se é capitalista ou socialista. Não é porque esse ex-dono de bar não acredite na livre empresa. É que, para ele, quando colamos rótulos nas pessoas, paramos de ouvir uns aos outros. “Estamos usando termos da maneira mais divisiva possível, e repetindo isso inúmeras vezes”, disse Hickenlooper. “Proponho que mantenhamos distância da terminologia e dos rótulos. Em vez de rótulos, deveríamos tentar resolver os desafios que nossa economia americana enfrenta.”

Tradução de Clara Allain

Jason Stanford é vice-presidente de Comunicações Globais da Hill+Knowlton Strategie

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