Líder do grupo Pussy Riot vai trazer seu protesto punk ao Brasil com livro e shows

Nadya Tolokonnikova lança guia para ativismo político e toca no Recife e em São Paulo em abril

Nadya Tolokonnikova durante performance nos Estados Unidos, em fevereiro deste ano  Rodin Eckenroth/Getty Images

Rafael Gregorio
São Paulo

Resistir à opressão com extravagância e sorrisos é a lição que Nadya Tolokonnikova tem a dar após sete anos à frente do grupo Pussy Riot.

A ativista russa compilou essas e outras diretrizes, como "faça seu governo cagar nas calças" e "faça de seus espancamentos medalhas de honra", no livro "Pussy Riot - Um Guia Punk para o Ativismo Político".

O volume, que ela lança no Brasil no mês que vem, é o arcabouço ideológico e estético do coletivo feminista, desde seus fundamentos anarcopunks até instruções mais objetivas, caso de "como formar uma banda política".

"Você precisa controlar o seu medo, ou seu medo controla você", diz Tolokonnikova, em entrevista a este repórter. "Tenho muitos temores, mas eles não ditam minhas ações."

Aos 29 anos, ela é um dos rostos mais conhecidos do Pussy Riot, célebre por ações que mesclam performance artística, punk rock e feminismo.

Seus alvos mais frequentes são o presidente russo, Vladimir Putin, e líderes conservadores, como Donald Trump. Acostumada a ser questionada sobre diferentes pendengas geopolíticas, a russa evita opinar sobre a política no Brasil. Ao menos por ora.

"Sei da situação, mas por cima; estou superempolgada e um pouco nervosa com a oportunidade de observar as coisas e ouvir as pessoas."

No livro, ela destaca uma premissa do grupo —a retomada do prazer, do mandamento "viver entre amor e risadas". Daí a exuberância estética e o semblante jocoso e lúdico dos atos que comanda.

Foi assim em julho do ano passado, quando três mulheres e um homem invadiram o gramado do estádio Lujniki, em Moscou, durante a final da Copa do Mundo, em ato pela libertação de presos políticos.

Na performance "Policiais Entram no Jogo", eles correram e gargalharam vestidos como improváveis militares delicados e em júbilo até serem expulsos por seguranças.

Em abril, Tolokonnikova e o Pussy Riot virão ao país pela primeira vez para shows nos festivais Abril Pro Rock, no Recife, e Garotas à Frente, em São Paulo, que terá bandas nacionais como Sapataria, oficinas do grupo Girls Rock Camp Brasil e uma mostra de arte.

No show, no qual cantam sobre bases eletrônicas, as russas devem se concentrar no repertório mais recente —o disco "XXX", de 2016, e a música "Track About Good Cop" (faixa sobre policial bonzinho).

No festival, será lançado também o livro que inspirou o nome do evento, "Garotas à Frente", da americana Sara Marcus. A obra revê o movimento riot grrrl nos anos 1990, que combatia um histórico desequilíbrio de gênero.

"O punk é uma força política maravilhosa, mas foi historicamente masculino; Hanna quebrou esse tabu", comenta Tolokonnikova. Não é possível saber que outras Pussy Riots virão ao Brasil —as líderes evitam viajar juntas, e as novas integrantes preferem não ser identificadas, diz a cantora.

Tolokonnikova, aliás, acabou ganhando ares de relações públicas do grupo formado há oito anos e alçado à fama em 21 de fevereiro de 2012.

Naquele dia, ela e mais quatro garotas fizeram um concerto performático na Catedral de Cristo Salvador, em Moscou, um dos principais templos da Igreja Ortodoxa Russa, de fortes laços com Putin.

Vestindo gorros coloridos cobrindo o rosto, elas apresentaram uma espécie de oração punk obscena chamada "Virgem Maria, Tire o Putin do Poder", numa crítica ao apoio de lideranças da igreja à eleição do político naquele ano.

Dançaram e cantaram por apenas 90 segundos antes de serem detidas, mas o vídeo chegou ao YouTube e explodiu. Desde então, Tolokonnikova transita por centros de poder. Deu palestra em Harvard, foi perfilada por bastiões da mídia e participou de atos do partido Democrata. Tem prestígio e contatos que a dão certa proteção.

Mas a projeção não se repete na Rússia, onde militâncias são enquadradas por leis antigays, pela igreja e por Putin, no poder desde 2000.

Por isso, a segurança é relativa. Após o episódio que alçou o grupo à fama, Tolokonnikova e Maria Alyokhina cumpriram pena por 21 meses, parte deles na Sibéria, acusadas de "vandalismo e intolerância religiosa" —foram soltas após uma anistia do presidente às vésperas da Olimpíada de Inverno de 2014, em Sochi.

A ativista diz ainda viver com medo do Estado, sem falar na difamação virtual e nos grupos de extrema direita como o que a agrediu e a pintou de spray verde em 2014.

"Sonho que estou sendo espancada e presa", diz Tolokonnikova, falando de "um lugar a algumas horas de Moscou, prefiro não dizer onde".

Há seis meses, o ativista Pyotr Verzilov, ex-marido de Tolokonnikova, com quem ela tem uma filha, quase morreu após o que chamou de tentativa de envenenamento. Teria sido represália à invasão na final da Copa, da qual ele participou, e a reportagens dele sobre o envolvimento de Putin na morte de três jornalistas.

Segundo ela, era real a chance de estar sendo monitorada —inclusive na ligação a este repórter. "Com certeza sou espionada, mas você nunca sabe ao certo o quanto, e o poder da repressão reside justamente nessa indefinição."

Para ela, a ascensão de governos conservadores no mundo e na América Latina nasce da desigualdade, algo que seu coletivo combate —daí o certo otimismo sobre o futuro.

"Quando há tanta gente faminta e frustrada, a sedução dos populistas ganha força. Por outro lado, a maior parte das pessoas quer se divertir, fazer sexo, estar aberta ao mundo e ser livre. Creio que essa será a força da libertação."


Shows do Pussy Riot
Festival Abril Pro Rock - Baile Perfumado - r. Carlos Gomes, 390, Recife. Sex. (19/4): 20h. Ingr.: R$ 60 a R$ 120, em sympla.com.br. 18 anos. Festival Garotas à Frente - Fabrique Club - r. Barra Funda, 1.071, São Paulo. Sáb. (20/4): 16h. 16 anos. Ingr.: R$ 80 a R$ 100, em pixelticket.com.br

Pussy Riot - Um Guia Punk para o Ativismo Político
Autora: Nadya Tolokonnikova. Tradução: Jamille Pinheiro Dias e Breno Longhi. Ed. Ubu, R$ 49,90 (288 págs.)

Garotas à Frente
Autora: Sara Marcus. Tradução: Luiza Sellera. Ed. Powerline Music & Books, R$ 59,90 (432 págs.)

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