Descrição de chapéu
Artes Cênicas

Peça 'MDLSX' erotiza corpo fora dos padrões para atacar preconceito

Espetáculo italiano apresenta uma atriz andrógina em busca da própria identidade

Bruno Machado

MDLSX

A sigla “MDLSX” —referência a “Middlesex” (algo como “sexo do meio” ou “terceiro sexo”), livro que rendeu o Pulitzer a Jeffrey Eugenides em 2003 e no qual o solo se baseia livremente— é um manifesto pela libertação da diferença frente à obsessão humana pela categorização e rotulação dos corpos. 

O espetáculo da companhia de teatro italiana Motus é uma confluência de linguagens: monólogo, performance, documentário cênico, show musical. A definição é tão fluida quanto a figura da protagonista Silvia Calderoni.

Silhueta andrógina, sozinha em cena, a performer se esquiva de denominações —o termo intersexo, atualização do estigmatizante hermafrodita parece o mais adequado— enquanto manipula as atenções da plateia. Ora gera curiosidade sobre o próprio corpo, ora repele um olhar invasivo. Assim, estabelece uma dinâmica voyeurística crítica do preconceito fetichizador do corpo fora de padrão, mas que também celebra, erotiza e, portanto, positiva a diferença.

Em diálogo com a teoria queer, a noção de identidade é posta em xeque: abstração que instrumentaliza o corpo e despreza a sua materialidade, dimensão primeira e essencial. No futuro utópico imaginado por Calíope, personagem de Calderoni, não há mais homens, mulheres, homo, hetero, cis ou trans —apenas corpos que vivem e gozam as suas diferenças, naturais e intrínsecas.

Além da esfera política, o espetáculo contém uma dimensão afetiva (não menos política) representada pela narrativa de contornos clássicos sobre a busca por si mesmo. Assim, a atriz manipula um aparato tecnológico de luz, câmera, trilha sonora e figurinos num processo de elaboração cênica que é também a construção do próprio corpo e da própria identidade.

Embalados por um repertório que vai de Buddy Holly a The Cramps, Talking Heads a The Knife, surgem registros em vídeo da infância e da adolescência, interpoladas por projeções feitas ao vivo pela atriz: o passado, cristalizado na película, é manipulado pelo tempo presente, pela corporeidade da performance; a música adentra a equação como memória afetiva em estado puro.

Ao fim da jornada, que passa pela adoção de uma identidade masculina e depois uma apresentação com um rabo de sereia num tanque sob olhos curiosos (os nossos, os da plateia), borrões entre ficção e realidade, a atriz-personagem parece conceber a identidade como inexistente ou inútil, pois meramente abstrata. A dimensão política da memória —do conjunto de experiências em sociedade— se impõe; está impressa no corpo. Sua identidade não é uma abstração, é material. É o seu corpo.

Gênero nada mais é que performance, afirma a teórica Judith Butler, em frase aqui lida ao pé da letra. Ao encenar a fluidez e apresentar as possibilidades políticas e estéticas do corpo, “MDLSX” abraça e celebra a diferença. Assim fala, indistintamente, para e sobre todos nós. 

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