Descrição de chapéu Artes Cênicas

'Sempre me achei uma atriz', diz Regina Casé em retorno ao teatro

'Recital da Onça' rompe hiato de quase 25 anos na arte de formação da apresentadora

mulher de preto no palco
A atriz Regina Casé, que volta ao teatro com "Recital da Onça" - João Pedro Januário/Divulgação
Maria Luísa Barsanelli
Curitiba

Emendando um trabalho noutro, Regina Casé não reparou na distância. Fazia quase 25 anos que não atuava no teatro, sua arte de formação.

“Estranhei demais isso, porque para mim foi ontem. Quando alguém me perguntava o que eu sou, eu dizia que sou atriz. Eu sempre me achei uma atriz e uma atriz de teatro, que estava circunstancialmente a serviço de outras ideias”, conta ela, que nos últimos anos dedicou-se a apresentar programas como o Esquenta, na TV Globo.

Mas de uns tempos para cá, diz, ressentia-se de não atuar. Com o sucesso de “Que Horas Ela Volta?” (2015), filme de Anna Muylaert protagonizado por Casé, achou que retorno viria naturalmente. “Mas não aconteceu. Eu vi que que eu precisava ter uma intencionalidade.”

A intenção veio meio ao acaso, numa conversa com o marido, Estevão Ciavatta, que nunca tinha visto Casé em cena. “Sou casada com ele há 23 anos e parei o teatro pouco antes disso. Eu digo que eu fiz essa peça só pra ele me ver no palco”, brinca. ​

A conversa despojada resultou num espetáculo não menos despretensioso. “Recital da Onça” foi um projeto feito para algumas sessões na Bahia, onde o casal costuma passar os verões, mas acabou ganhando sobrevida. Após estrear no início do ano em Salvador, participa nesta semana o Festival de Teatro de Curitiba e no próximo mês seguirá uma temporada no Rio de Janeiro.

Trata-se, como o próprio nome diz, de um recital, uma estrutura resgatada de conversas de Casé com a cineasta Sandra Kogut, com quem filmou no ano passado “Três Verões”, e com o antropólogo Hermano Vianna, parceiro da atriz em projetos na televisão e que assina com Casé a criação da montagem.

Ciavatta faz a direção geral, e Hamilton Vaz Pereira, ex-marido da atriz, que a dirigiu em quase todas as suas peças, cuidou da direção cênica. Já Luiz Zerbini (outro ex) ficou com a cenografia. “Só faltou um ex-marido, o Carlão [Teixeira], que mexe com gastronomia. A gente brinca que vai chamar ele pra fazer o catering.”

Para o espetáculo, partiu-se da ideia de uma mulher que é convidada a dar uma palestra em Harvard sobre a literatura brasileira. Logo pede ajuda da plateia na seleção de textos. Nesse ensaio, passa por escritos de autores como Clarice Lispector (“A Descoberta do Mundo”), Guimarães Rosa (“Meu Tio o Iauaretê”) e Mário de Andrade (“O Turista Aprendiz”).

A cada cidade, mudam-se alguns textos, colocando tintas regionais. Se na Bahia havia Jorge Amado (“Jubiabá”), em Curitiba troca-se por Paulo Leminski (“Agora é que são Elas”) e Dalton Trevisan (“Moreno ingrato”). No Rio, textos de Alberto Mussa devem integrar as sessões.

Mas é tudo mesclado a relatos pessoais da atriz, comentários que ela fazia durante o processo de criação do espetáculo, como seu temor de aeroportos ou mesmo fatos da sua carreira.

“Fora o que eu invento na hora. E ainda tenho que ficar me controlando, senão a sessão fica muito grande.” Assim, por vezes não se tem certeza se o que ela diz é um texto literário ou uma colocação própria, se é ficção ou realidade.

Tanto que ela lembra à reportagem de uma visita que o amigo Zeca Pagodinho fez em Salvador. “O Zeca não vai muito ao teatro. Mas levou duas garrafas de vinho e foi me ver lá na Bahia. Eu ia falando o texto da peça e ele respondia tudo, igual criança. Eu falava, ‘aeroporto é horrível, dá um medo na gente’, e ele: ‘Eu tenho pavor’. Aí, quando acabou, ele disse pra mim assim: 'Casé, até a metade eu achei que não tinha começado. Depois eu vi que já era o negócio’.”

Afinal, a atriz faz tudo num tom coloquial, sem buscar uma impostação ou um rebuscamento para os textos. “Tenho pavor dessa ideia de que existe uma alta cultura e uma baixa cultura. No país em que a gente vive, se a gente pensar assim, perde tanta coisa. Joga a criança fora com a água da bacia. Esse é um preconceito que acaba trazendo a reboque tantos outros terríveis. E sinto que o caminho hoje é o do amor, do afeto. Não tem mais como a gente ter mais ódio de nada, de ninguém.”

O tom coloquial é uma linguagem que sempre permeou os trabalhos da atriz, desde os tempos de Asdrúbal Trouxe o Trambone, grupo carioca que marcou o teatro dos anos 1970 e 1980 com criações coletivas e interpretações despojadas --além de Casé, Vaz Pereira, Luiz Fernando Guimarães e Patrícia Travassos integravam a companhia.

“Desde a primeira vez que eu fiz teatro, nunca tive a sensação de que eu estava estática num lugar em que as pessoas foram me ver. Sempre senti que era um encontro. Talvez para mim nunca tenha existido uma quarta parede”, afirma.

“Quando comecei ‘Nardja Zulpério’ [um dos maiores sucessos teatrais da atriz, que ficou em cartaz de de 1988 a 1994], eu ficava no palco e tinha uma cena de plateia pontual. Quando ela terminou, era quase dois terços na plateia. Dava vontade de conversar com as pessoas.”

Um desejo que Casé pretende retomar. Em junho, ela faz uma pausa no teatro para começar as gravações de “Amor de Mãe”, novela da Globo com autoria de Manuela Dias e direção de José Luiz Villamarim da qual a atriz será uma das protagonistas.

“Num futuro depois da novela, eu gostaria de fazer um repertório [de peças], talvez remontar a ‘Nardja’. ‘Recital’ é muito bacana, tem uma coisa tão coloquial, mas é bacana também eu virando onça, fazendo uma outra coisa. Então eu tenho vontade de não abandonar mais o meu lado atriz.”

A jornalista viajou a convite do Festival de Teatro de Curitiba.

Recital da Onça
Qui. (28) e sex. (29), às 21h, no Teatro Guaíra, r. 15 de Novembro, 971, Curitiba; R$ 70. E de 19/4 a 12/5, sex. e sáb., às 20h, dom., às 18h, no Oi Casa Grande, av. Afrânio de Melo Franco, 290, Rio de Janeiro; R$ 70 a R$ 120; 12 anos

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