Balada ODD, marco na cena noturna de São Paulo, celebra quatro anos de vida

Festa faz uma mistura explosiva de música, performances e ativismo em lugares abandonados ou escondidos da cidade

João Perassolo
São Paulo

​Passa da uma da madrugada em uma noite de mais de 30 graus quando os baladeiros reunidos na Vila dos Galpões, na Mooca, começa, a ouvir uma série de barulhinhos eletrônicos que parecem saídos de um filme de ficção científica dos anos 1980. É um som um tanto experimental e viajante.

A jornada dura cerca de meia hora até que os “blips”, “blops” e “tóins” vão cedendo lugar a uma sonoridade dançante, que une a um só tempo o tradicional bate-estaca da música eletrônica com bastante melodia. A house music que toma conta da pista ao ar livre leva o público a levantar os braços, a gritar e a assobiar para o DJ. 

Era a primeira edição do ano da ODD (“odd” significa estranho, em inglês), noite mensal de música eletrônica que completa quatro anos agora. A balada se transformou em um marco na cena noturna de São Paulo ao levar para espaços inusitados da cidade uma mistura de música, performance de corpo e ativismo queer, atraindo um público médio de 1.500 pessoas por edição.

“Desde o início a ideia era que a ODD fosse mais do que um espaço de entretenimento ou só de audição de música. Queria que fosse uma incubadora de ideias e artistas”, diz Márcio Vermelho, um dos fundadores da festa, ao lado dos DJs e produtores musicais Davis e Pedro Zopelar.

A ODD é o desdobramento de outro projeto de Márcio Vermelho chamado Laço, que durou de 2011 a 2016. O evento levava apresentações musicais, performances e instalações para o subsolo do extinto Paço das Artes da Cidade Universitária e para a Casa das Caldeiras.

“A gente convidava artistas que experimentavam de mil formas —no som, por exemplo, era algo mais ‘noisy’, e a programação visual da festa era muito importante. Naquele momento comecei a trazer performers”, conta Vermelho, ele próprio um dos DJs mais influentes da cidade.

Na ODD, as performances ganhariam protagonismo, arrancando do público vibração semelhante às discotecagens de estilos como house, techno e synthwave. Há em média quatro performers por edição, que se apresentam à frente ou ao lado dos DJs, dançando sobre a mesa onde ficam os toca-discos.

Uma das revelações é Aun Helden, que usa máscaras de borracha que lembram ETs ou fetos com olhos pretos esbugalhados. Com seus 13 mil seguidores no Instagram, chamou a atenção até da descolada revista britânica Dazed.

Aun Helden “se opõe aos rígidos padrões binários de uma sociedade patriarcal 
cis-heteronormativa”, escreveu a publicação, dizendo que seus shows refletem os medos da juventude brasileira na era de Jair Bolsonaro. “É arte com uma agenda biopolítica firmemente enraizada na condição humana”, acrescentava o artigo. 


A ODD, que teve sua primeira edição em um inferninho na rua Bento Freitas, é talvez o expoente máximo de uma cena de baladas nascidas no lastro da extinta Voodoohop, a primeira noite a decretar que festa boa não era em boate, mas sim na rua, de preferência em prédios abandonados com uma estética de ruína que lembra Berlim.

Para a nova fornada de festas —que inclui Mamba Negra, Metanol, Gop Tun, Selvagem e A Tenda—, sair do confinamento dos clubes não significou apenas uma mudança física. A troca de ambientes trouxe um público muito mais variado em relação ao das boates, em geral extremamente segmentado.

Entre os frequentadores da ODD estão tanto o menino magérrimo de camiseta justa, plataforma e meia verde, com visual que lembra os clubbers dos anos 1990, quanto jovens da periferia usando camisetão e óculos escuros, escorados nas paredes com cara de mau. Há também loirinhos de olhos azuis de roupa de surfista e basicões de jeans e camiseta.

Boa parte do público da festa é gay, abaixo dos 30 anos, e abraça a fluidez de gêneros. Nas áreas de descanso, é comum ver meninos de miniblusa se abanando com leque e conversando no feminino. Há também uma lojinha que vende acessórios fetichistas de látex colorido e argolas de metal. Ou seja, todas as sexualidades são bem-vindas e, se não abraçarem uma definição precisa, tanto melhor.

“A ODD é um espaço livre de homofobia e de transfobia. É um lugar de trocas, de se sentir protegido para ser quem a gente é”, afirma Vermelho, que começou sua carreira tocando em saunas gays da Santa Cecília. “A festa é um espaço de resistência a essa tensão e a esse triste momento político em que vivemos.”

O espírito político da ODD tem um lado. Vermelho conta que a festa teve uma edição na véspera do segundo turno das eleições presidenciais do ano passado em uma praça na Barra Funda, de graça, para todos. A escolha da data teria sido estratégica. “Foi muito arriscado, porque estavam tendo aqueles ataques na rua [contra gays]”, diz. “Mas foi emocionante. A festa foi muito legal.”

A ODD, agora, se prepara para explorar outras áreas. Está previsto para este mês o lançamento do primeiro disco do selo musical da festa, a ODDiscos, tocado pelo sócio Pedro Zopelar.

Será uma compilação de quatro faixas dos DJs residentes Zopelar, Davis, Juliana Frontinn e Márcio Vermelho. Em seguida, sai um EP do Vermelho Wonder, projeto de Vermelho com a drag queen Ivana Wonder.

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