Christiane Jatahy faz sequência de 'Ítaca' com relatos de refugiados

Peça 'O Agora que Demora' foi construída com histórias colhidas em viagem pelo mundo

São Paulo

Christiane Jatahy deu quase uma volta ao mundo até reencontrar seu Brasil —ou “voltar a Ítaca”, como ela mesma define. Um percurso epopeico como aquele da “Odisseia” de Homero, obra em que a diretora carioca vem mergulhando nos últimos tempos.

Durante mais de seis meses, percorreu cinco países, Brasil incluso, encontrando-se com refugiados para mesclar suas histórias pessoais à ficção do poeta grego. “A gente foi em direção à ‘Odisseia’, e a ‘Odisseia’ foi entrando na gente. Um pouco como nas histórias gregas, em que você vai em direção ao seu destino”, diz a encenadora.

Christiane Jatahy, diretora do espetáculo "O agora que Demora", no Sesc Pinheiros
Christiane Jatahy, diretora do espetáculo "O agora que Demora", no Sesc Pinheiros - Lenise Pinheiro/Folhapress

O resultado dessa travessia está em “O Agora que Demora”, segunda parte do projeto Nossa Odisseia, que começou no ano passado com “Ítaca”. Se no espetáculo anterior os relatos de refugiados eram dissolvidos nas falas dos atores, agora eles estão mais presentes.

O percurso que Jatahy e sua equipe iniciaram em setembro, começando pela Palestina e seguindo por Líbano, Grécia, África do Sul e finalmente a Amazônia brasileira, tinha por intenção não apenas colher as histórias locais, mas também fazer registros em filme, um recurso bastante presente na trajetória da diretora.

A carioca trabalha sempre numa fronteira entre o teatro e o cinema. Mas não se trata apenas de utilizar vídeos em cena. Seu cinema tem um pensamento teatral. É uma linguagem que vem chamando a atenção da cena estrangeira, em especial a europeia, onde a diretora tem sido convidada a trabalhar nos últimos anos —“O Agora que Demora” é uma coprodução do Sesc SP com o Teatro Nacional de Bruxelas e outras instituições; após estrear em São Paulo, nesta semana, já tem agendada uma turnê pela Europa até junho do próximo ano.

No novo espetáculo, o filme ganha ainda mais força. Afinal, ela e sua equipe —o cenógrafo e iluminador Thomas Walgrave, o fotógrafo Paulo Camacho e o produtor Henrique Mariano— recriaram quase toda a epopeia de Homero, aquela sobre o herói Ulisses, que luta dez anos na Guerra de Troia. Depois, leva outros dez para retornar a Ítaca, sua casa, passando por provações, enfrentando monstros.

A cada lugar, o quarteto chegava sem muitas traquitanas: malas de roupa, equipamento de câmera, uma edição da “Odisseia” na língua local e uma toalha de mesa branca, usada para criar a cena de um banquete.

De suas falas pessoais, narrando suas travessias para fugir de um país em conflito, os refugiados passavam para o poema épico, realçando semelhanças entre as suas histórias e a de Ulisses ou de outros personagens. As crianças, muitas sem família, remetiam a Telêmaco, filho do protagonista que fica 20 anos sem ver o pai.

No caso da Palestina e da Amazônia, onde a equipe visitou uma tribo de índios kayapó, o refúgio ganha outro sentido. “São pessoas que têm suas casas lá, mas perdem o direito a ela. Exílio não é só precisar sair, é também ser exilado dos seus direitos. Uma situação que te deixa num estado de imobilidade, esse agora que demora”, explica a diretora.

Walgrave compara os diferentes tipos de refúgio com a dicotomia entre Ulisses e Penélope, mulher do herói, que espera por ele em Ítaca e vê sua terra invadida. “É difícil entender ali quem foge, quem fica e quem tem que defender a casa.”

Espetáculo "O agora que demora", da diretora Christiane Jatahy
Espetáculo "O agora que demora", da diretora Christiane Jatahy - Lenise Pinheiro/Folhapress

Na peça, os relatos pessoais são costurados de forma muito orgânica aos trechos da “Odisseia”. Por vezes não se sabe bem se as falas são parte do poema épico ou fatos reais.

“Acho que essa relação entre realidade e ficção surge nas artes como uma tentativa de validar uma ficção. Mas cada vez mais a realidade está ficando tão absurda que parece que é mesmo uma ficção. Que roteirista é esse?”, diz Jatahy. “E isso tem a ver com que está acontecendo no Brasil [a turbulência política e a ascensão conservadora]. Nós somos um pouco Ulisses, estamos numa odisseia.”

Diferentemente de “Ítaca”, que dividia o palco e a plateia em dois e concentrava a ação em duas ilhas da história —a casa do protagonista e a de Calipso, onde Ulisses vive prisioneiro por sete anos—, a nova peça narra quase a totalidade da “Odisseia”.

Os registros dos refugiados são projetados sobre uma grande tela. Aos poucos, o que acontece no vídeo vai se relacionando com a ação dos atores no teatro. Estes também são filmados ao vivo, e suas imagens se misturam aos vídeos pré-gravados.

Esse balanço audiovisual é controlado pela própria diretora, que está em cena, numa mesa de edição colocada sobre o palco. Ela mesma tem algumas falas: comenta sobre projeto e até faz relatos pessoais, sempre os embaralhando à “Odisseia”.

“Para mim essa mistura de linguagens tem muito a ver com o conteúdo do projeto, que é desierarquizar, romper com a ideia da fronteira, aproximar o outro da gente”, afirma a diretora. É esse agora que demora a se encontrar.

O Agora que Demora
Sesc Pinheiros, r. Paes Leme, 195. Qui. a sáb., às 20h30, dom., às 18h. De 2/5 a 2/6. Ingr.: R$ 15 a R$ 50. 16 anos.

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