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Romance 'Dora Sem Véu' narra busca por avó com entrelinha bíblica

Escritor cearense Ronaldo Correia de Brito recria o mito de Jonas e a baleia em sua terceira obra no gênero

Alberto Mussa

Dora Sem Véu

  • Preço R$ 49,90 (248 págs.)
  • Autor Ronaldo Correia de Brito
  • Editora Alfaguara

É raro ver surgir um romancista que se torne definitivo logo no primeiro romance. Não me refiro a número de leitores, ou a premiações (ainda que sejam elementos muito relevantes) —mas a um conceito literário próprio, coerente; e à criação de uma voz pessoal.

Digo isso a propósito de Ronaldo Correia de Brito, que alcançou esse feito com a publicação de "Galiléia", em 2009.

O romancista em Ronaldo, todavia, estava em gestação havia ao menos duas décadas, quando sua primeira coletânea de contos conquistou o prêmio Estado de Pernambuco. Além de magistral contista, com obras-primas como "Faca e o Amor das Sombras", Ronaldo é também prolífico dramaturgo, sendo "Baile do Menino Deus" sua peça mais importante.

Poderíamos dizer que ele costuma situar suas narrativas num tempo bíblico, subjacente ao tempo ficcional propriamente dito. É o que se vê, por exemplo, neste "Dora Sem Véu", seu terceiro romance.

O escritor cearense Ronaldo Correia de Brito - Divulgação

Francisca, socióloga, que estuda literatura de cordel, recebe do pai, Jonas, na hora da morte, uma missão: descobrir o paradeiro de Dora, avó cuja existência ignorava —já que Jonas abandonara a mãe e os irmãos menores, sem nunca mais ter tido notícia deles, sem nunca tê-los mencionado.

Disposta a cumprir a missão, Francisca vai na carroceria de um caminhão, acompanhada do marido, Afonso, até Juazeiro do Norte, no rastro de Dora. Na viagem, conhece uma família de romeiros e um rapaz, Wires, com quem irá se envolver. Revê também parentes e antigos companheiros de Afonso, engajados quando jovens num projeto humanitário em benefício das populações ribeirinhas da Amazônia.

É a partir desse argumento simples que o romance se desenvolve, abordando temas urgentes e muito contemporâneos como corrupção, desvio de dinheiro público, exploração sexual da mulher, violência contra a mulher, pedofilia, aborto, machismo, racismo, exploração do trabalho, trabalho escravo, sexualidades.

Há personagens interessantíssimas, como Wires, homem bissexual que fascina Francisca e cuja profissão é costurar lingeries; Daiane, romeira que, vestida de noiva (embora já tivesse praticado um aborto), vai pagar a promessa feita pela mãe; ou mesmo a figura incidental de Mestre Alexandre, que diz talvez a frase mais impactante, e mais simbólica do livro: "a tentação do bem é mais perigosa que a do mal".

Mencionei o fundamento bíblico que em geral caracteriza a literatura de Ronaldo Correia de Brito: "Dora Sem Véu" pode ser lido como recriação do mito de Jonas e a baleia.

Mas há outro elemento da mitologia bíblica que parece dominar as entrelinhas: o princípio do pecado original, segundo o qual tanto os crimes quanto as penas devem ser hereditários. No romance, Francisca herda a culpa do pai e se vê obrigada a expiá-la, na busca por Dora.

Poderia dizer muito mais, tal a riqueza de referências e símbolos do subtexto. Mas termino com um convite ao leitor: pensar no título "Dora Sem Véu" e no enigma que, num certo sentido, ele propõe. Se Dora, enfim, não é achada, quem, na verdade, se descobre?

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