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Estampa de camuflagem e roupas de combate invadem as passarelas

Em tempos de apologia da violência, o camuflado, o verde-musgo e o look de guerra estão em alta

Modelo desfila coleção de camuflados do estilista João Pimenta na 47ª São Paulo Fashion Week  Nelson Almeida/AFP

Pedro Diniz
São Paulo e Belo Horizonte

Desde a redemocratização, nunca houve tanta gente vestida para combate nas ruas do país.

Se a ditadura no Brasil fez brotar um ranço com qualquer referência ao uniforme militar, que até os anos 1990 era quase impeditivo no guarda-roupa dos brasileiros, agora um exército fashionista trajado com padrões de folhagens secas saiu do armário para uma nova parada militar.

Industriais do ramo têxtil confirmam o movimento que já é sentido nas passarelas. O camuflado, o verde-musgo e os abotoamentos do look de guerra estão em alta.

Responsável pelo departamento de estilo da mineira Tear Têxtil, que produz tecidos para varejistas e tem como um dos principais clientes a Renner, Jéssia Carvalho afirma que, hoje, quase metade de tudo o que estampa são versões do padrão camuflado.

Bermudas, calças e jaquetas são as peças que mais recebem a tinta verde. "Padrões floral e animal cansaram. Estava tudo certinho demais", diz ela.

Na feira de negócios Minas Trend, em Belo Horizonte, metade de seu mostruário tinha bases de estamparia com esses motivos bélicos.

Karina Ossugui, da área de desenvolvimento de outra gigante do ramo, a TexPrima, afirma que "desde o ano passado as lojas sentem um aumento significativo nessa demanda" e a empresa já desenvolve para o inverno 2020 novas versões dos padrões.

Isso quer dizer que pelo menos até o próximo ano a moda será abastecida com o tema, mas com bases de tecido diferentes, como lã e pelos.

Até o exclusivo mundo dos relógios se rendeu. No último Salão Internacional de Alta Relojoaria, que ocorreu em janeiro, em Genebra, a cor mais vista nos lançamentos de marcas como Montblanc e IWC era o verde, meio musgo, meio oliva.

Relógio 1858 da Montblanc. Feito em oficina de manufatura em Villeret e Le Locle, foi lançado na feira SIHH 2019, em Genebra, na Suíça
Relógio 1858 da Montblanc. Feito em oficina de manufatura em Villeret e Le Locle, foi lançado na feira SIHH 2019, em Genebra, na Suíça - Divulgação

"É uma cor masculina, mais conservadora, que traduz o espírito do tempo", disse na ocasião o diretor da IWC para a América Latina, Thomas Perini, a este repórter.

Ainda não há pesquisas sobre a militarização do guarda-roupa aqui no Brasil, mas é certo que, no exterior, a tropa de choque da elite fashion traduz os anos belicosos.

Seguindo a última temporada internacional de desfiles, quando Louis Vuitton, Prada e Miu Miu aderiram à marcha de soldados de luxo, a São Paulo FashionWeek também mostrou a sua armada.

Mas, por que, só agora, no Brasil, o camuflado é uma tendência quase absoluta do varejo popular ao de luxo?

Estilistas e profissionais do mercado apontam o clima belicoso como ponta de lança dessa marcha. "É um momento do mundo de guerrilha permanente. Quando você se camufla, se mistura ao ambiente, e, numa guerra, se esconde", compara a editora de moda Lilian Pacce.

Tendo em vista o cenário local, parece um estado de sítio.

Um passeio pelos sites de ecommerce das redes mais populares comprova o interesse dos clientes. Não há nenhuma grande loja dessas e de outra grife de jeans que não venda uma coleção com padrão de folhas secas.

Na Riachuelo, por exemplo, há 185 itens camuflados nas araras masculinas, femininas e infantis. Na Renner, são 68, e na C&A, a que mais aderiu ao movimento, nada menos do que 218 produtos de inspiração militar.

Até a moda praia entrou na onda. A grife Triya, uma das mais prestigiadas no mercado internacional, lançou uma coleção completa de biquínis, shorts, maiôs e vestidos forrados com o padrão camuflado.

Segundo o consultor André do Val, agora que o estilo não enfrenta mais qualquer olhar enviesado, 55 anos depois do golpe militar, o clima é de liberou geral para a tendência.

Mas não qualquer padrão. O país gosta, de acordo com ele, do estilo de um militar de baixa patente, um look simples de soldado raso.

 

"Não tem o lado chique das dragonas ou dos ombros trabalhados do militarismo", diz.

A composição política do país, que hoje abriga mais de cem militares no governo federal, explica o pendor armamentista do guarda-roupa.

"Temos um vice-presidente general, discussões sobre porte de armas e um governo bélico em muitos aspectos. A moda parece estar enxergando oportunidades nisso", diz o consultor Sylvan Justum.

Mas há, porém, o avesso da história. Tanto lá fora quanto aqui, grifes autorais têm usado o padrão camuflado para romantizar, ou mesmo baixar o tom de brutalidade que a estética militar assume.

Foi assim que João Pimenta definiu sua coleção de camuflados manchados de sangue artificial e bordados com flores, rendas e outras minúcias de pegada mais pacifista.

"Acho que é o momento de mostrar verdades, para onde estamos caminhando com o discurso de ódio. É preciso mais amor", diz o estilista.

Guerra e paz, aliás, foi o tema que Ronaldo Fraga escolheu para seu desfile na semana passada. A passarela com modelos em marcha militar foi toda inspirada nos célebres murais de Candido Portinari da sede das Nações Unidas.

"Existem duas leituras para esse momento. Uma de agressividade e outra de resistência. Evidentemente, ambas estão no ar e é natural que a moda se aproprie disso", afirma a consultora Gloria Kalil.

No desfile da Miu Miu, na semana de moda de Paris há um mês, o camuflado apareceu dentro dessa lógica de proteção, como base de vestidos e capas no estilo "ladylike", mais adocicado, servindo de contraste à imagem agressiva do look de exército.

Isso bem depois de Dior, Louis Vuitton e Salvatore Ferragamo, só para citar algumas marcas do circuito europeu, adotarem os acabamentos e bolsos utilitários dos coletes e trench-coats bélicos.

Vestindo uma calça camuflada justa, regata e um colar de tachas, o blogueiro gaúcho Felipe Cavalheiro foi um dos vários fashionistas que passaram pela São Paulo Fashion Week ostentando mais um look de combate.

Na visão dele, a roupa traz um sentido de poder. "Eu costumo vestir cores, estampas, daí misturo com algo assim, mais agressivo, e me sinto uma pessoa mais forte", explica. Ele acrescenta que em Porto Alegre, onde mora, há "bastante gente usando camuflado, mas nada comparado a São Paulo".

Essa mesma ideia de proteção é a base conceitual das coleções recheadas de camuflados do estilista Rafael Caetano, nome em ascensão do evento Casa de Criadores e um dos poucos do país a assumir o viés queer de sua criação.

Ele já tingiu as folhagens de rosa e flúor, fez camuflado de paetês e juntou tudo a peças transparentes, coloridas e a desenhos de unicórnio, símbolo pop da comunidade gay.

"Apesar do tom agressivo, o camuflado não deixa de ter uma conotação de militância, de se estar no meio de uma luta", explica Caetano.

Segundo ele, o desenho soa também como algo escondido, disfarçado no armário, um trocadilho sobre a situação dos homossexuais no país.

"É uma maneira de resistir, claro, e fazer esse tipo de coisa enquanto nós somos autorizados a vestir essas roupas."

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