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Filme pró-golpe militar foi exibido por erro, informa Cinemark

Rede de cinema diz que só soube da natureza do evento na véspera da projeção

Tanque no Rio de Janeiro, no dia do golpe militar, em 1964
Tanque no Rio de Janeiro, no dia do golpe militar, em 1964 - Divulgação
Guilherme Genestreti
São Paulo

Emparedada nas redes sociais após ter permitido a exibição de um filme pró-golpe militar em seis cidades brasileiras, a rede Cinemark informa que um erro de procedimento esteve por trás da projeção do documentário “1964: O Brasil entre Armas e Livros". 

Em nota enviada à imprensa, a rede de cinema informa que "não se envolve com questões político-partidárias" e que não autoriza em seus complexos a divulgação de "mídia partidária, tampouco eventos de cunho político." A atitude seria uma diretriz internacional da empresa. 

À reportagem, a Cinemark informa que foi procurada há algumas semanas por um grupo interessado em alugar salas em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Recife e Curitiba.

É praxe que a empresa só autorize o aluguel de seus espaços após ser informada do conteúdo do que será exibido. O erro de procedimento, no caso, foi que funcionário responsável por permitir a cessão das telas teria autorizado o uso sem inquirir o grupo a respeito do que seria projetado. 

A rede só se deu conta de que as salas havia sido alugadas para mostrar um filme pró-golpe militar no sábado (30), véspera do evento, marcado para ocorrer justamente na data que marca os 55 anos do evento histórico. Seria tarde demais, portanto, para cancelar a projeção. 

"1964" é uma produção do grupo Brasil Paralelo, dirigida por um coletivo de diretores, entre eles Henrique Zingano. A produtora gaúcha é especializada em lançar filmes sobre a história do país adotando um viés de direita, como é o caso do filme que originou a controvérsia com a Cinemark.

O documentário, que levou quase dois anos para ser feito, compila entrevistas com figuras como o ideólogo Olavo de Carvalho e sustenta a tese de que os militares só tomaram o poder no Brasil em 1964 porque o então presidente, o civil João Goulart, preparava aderir ao bloco comunista. 

A exibição do filme atraiu dezenas de pessoas às cidades em que ele foi programado. Mas causou uma celeuma nas redes sociais, dos dois lados do espectro ideológico. 

À esquerda, a Cinemark foi criticada por permitir a projeção de um filme que defende a instauração de um regime responsável por censura, torturas e assassinatos.

À direita, a rede foi alvejada porque a exibição no Rio acabou não acontecendo, o que despertou suspeitas de censura e originou até uma hashtag no Twitter, conclamando um boicote à rede de cinema. O que houve no caso, segundo a rede, é que aconteceu um problema técnico nos arquivos digitais do filme, que não permitiu que o filme passasse. 

O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente, foi um dos que puxaram o coro, afirmando que a Cinemark havia dado uma "desculpa esfarrapada" a respeito da não exibição no Rio. 

"1964" faz parte de uma onda de filmes que procuram trazer uma outra visão, de direita, sobre os eventos da história do Brasil. O que há de comum entre muitos deles é o fato de serem dirigidos por cineastas que foram alunos do curso dado pelo ideólogo Olavo de Carvalho, como Josias Teófilo e Mauro Ventura

O último fim de semana, que marcou os 55 anos do golpe militar, foi marcado por protestos em várias cidades brasileiras e confrontos entre manifestantes que celebravam e que marchavam contra o evento. 

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