Galerista que fez barulho nos anos 1980 retorna sem endereço fixo

Com imóvel temporariamente alugado nos Jardins, Regina Boni inaugura a galeria São Paulo Flutuante

A galerista Regina Boni, que inaugura da São Paulo Flutuante - Karime Xavier/Folhapress
São Paulo

Tarde não existe. Figurinista da tropicália e uma das principais galeristas dos anos 1980 e 1990,  Regina Boni, aos 76, resolveu voltar à cena. Alugou temporariamente um imóvel na rua Estados Unidos —a mesma onde ficava sua antiga galeria São Paulo— e abriu há pouco a segunda exposição da São Paulo Flutuante, lotando a calçada mesmo em noite de chuva.

“Tem muita gente que não está conseguindo vender porque os preços estão absurdos e os formatos são inconvenientes. A arte não sobrevive a esses abusos”, diz em seu apartamento na rua Sergipe, em Higienópolis, rodeada por obras de artistas amigos cuja carreira ajudou a alavancar —Luiz Paulo Baravelli, Wesley Duke Lee, José Resende.

 

Não é com eles, no entanto, que Regina quer trabalhar na nova fase. O plano é usar o espaço para apresentar nomes pouco conhecidos e trabalhar com preços “que as pessoas possam pagar” —ou até R$ 12 mil reais. Até o dia 18 de maio, mostra fotos de Havana feitas pelo jovem Rodrigo Sombra, nesta que é a primeira individual do fotógrafo baiano.

Da postura à maneira de vestir, Regina é um híbrido entre uma distinta senhora e uma vanguardista de espírito jovem. Devota do candomblé, mantém a amizade com Caetano, Gil e Gal ainda que os veja pouco.

Seu pai de santo é neto do Mestre Didi. E seu primeiro marido é o executivo José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni da Globo, de quem nunca deixou o apelido. De batom vermelho, desfila entusiasmada entre um exército de artistas, assistentes e amigos.  É a esquerda caviar, dirão alguns.

Os episódios da história são muitos, mas é recorrente a lembrança das exposições que fez com a obra de Hélio Oiticica. “Eu fiz cinco exposições do Hélio na época em que ele estava representado pelo Waly Salomão, Lygia Clark, Lygia Pape, Luciano Figueiredo. Pesquisar os arquivos, fazer os textos, o catálogo, e me marcou muito, era uma coisa que eu fazia sem medo. Tinha um clima que era contagiante.”

Em 1986, um desfile de passistas da Mangueira vestidos com os parangolés parou o trânsito ao redor da antiga galeria. “Entrava os colecionadores, os grã-finos, os intelectuais, os curadores internacionais, e o maloqueiro da rua, os frequentadores do boteco da esquina, muito jovem, todo tipo de gente.”

No novo modelo “flutuante”, a ideia é mudar com frequência de imóvel e não representar os artistas. “Posso ficar com algumas obras, mas não vou ter vínculo de domínio como as galerias têm.”

Longe das instalações gigantes e superconceituais vistas nas feiras internacionais, ela prefere trabalhar com suportes mais tradicionais.

Ainda neste ano, lança no mercado as pinturas de Ninetta Rabner —“é alguém que não tem medo de fazer pintura, mas é contemporânea, nova, revolucionária”— e tem agenda de exposições montada até meados do ano que vem.

Pois que é justamente o gosto pela prática do garimpo, da pesquisa e da produção que Regina procura recuperar. Desde o fechamento da São Paulo em 2002, trabalhou no mercado secundário, intermediando compra e venda de obras de artistas já consagrados, caminho distinto do escolhido pelas duas outras grandes marchands de sua geração, Luisa Strina e Raquel Arnaud, que se mantiveram participando de feiras como a SP-Arte, além de estarem imersas no processo de internacionalização do mercado.

Exilada durante a ditadura, Regina organizou no ano passado um encontro de músicos e cineastas para impulsionar a candidatura de Fernando Haddad e não poupa críticas ao governo eleito.

“Não tem mais Ministério da Cultura. Tá todo mundo sem patrocínio e eu não acredito que vá voltar por um bom tempo. Eu não posso perder a esperança, nem o pique, nem a vontade que eu estou de fazer. Eu prefiro ser alguém que está fazendo resistência do que ser alguém que está parado chorando em casa.”

Não faltam, também críticas às instituições, sobretudo à Bienal. “Elas [as bienais antigas] eram fantásticas, inteiras, íntegras, mesmo com toda a dificuldade. Virou uma coisa de quinta categoria. Para a Bienal pode até ser um remédio não ter Lei Rouanet, para obrigá-la a ser mais verdadeira.”

Quando ao mercado de arte, seu diagnóstico é a contaminação pelo que define como “era dos curadores e do marketing”.

“Eu comecei a perceber que os preços eram arbitrários e absurdos. Como você pode pedir um absurdo desses por uma peça que não é nada? Quando sobra só o conceito, é só um pensamento, não precisa da obra, você joga fora. Você consegue enganar um monte de gente por um tempo. Mas é só por um tempo,”, repete.

Sem tempo perdido, Regina poderia ser uma personagem de Proust na novela paulistana, dessas que se escondem para reaparecer mais adiante. O enredo, no entanto, transformou-se um bocado para além da rua Estados Unidos.

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