Descrição de chapéu Análise Cinema

Há 40 anos, Woody Allen fazia de Nova York a capital do mundo

Cidade podia ser tudo menos um lugar aprazível até a estreia de 'Manhattan'

Inácio Araujo

Até alguns anos atrás, podia-se pensar em algumas imagens que representavam Nova York: o Empire State, a estátua da Liberdade ou mesmo as Torres Gêmeas. Simbolizavam, respectivamente, a força do crescimento da metrópole, o espírito democrático (e a união com a Europa), o poder dos negócios.

Existe ainda, é verdade, o ambíguo touro de Wall Street, sobre o qual convém passar a mão para ter sorte (ou acalmá-lo). Mas, desde 2008, sabe-se que a Bolsa é uma coisa e a sorte outra, bem diferente.

Não. Desde 1979, o cartão postal de Nova York é em branco e preto traz a ponte Queensboro, à noite, com um casal sentado diante dela, num banco. A cena está em “Manhattan”, na imagem criada por Woody Allen e iluminada por Gordon Willys.

A partir de então, Nova York deixou de ser apenas pujança, dinheiro, arte. Tornou-se a cidade romântica por excelência, onde todos os encontros são possíveis, mesmo os que envolvem um desajeitado escritor —o personagem-chave da primeira fase de Woody.

Nova York já era conhecida pelo crime, pelo gangsterismo, pela violência, pela tragédia. De “West Side Story” a  “Taxi Driver”, do filme noir até os perigos de “Warriors”, podia ser tudo, menos um lugar aprazível. Woody virou essa imagem pelo avesso.

Boa parte do encanto dessa imagem vem do próprio personagem do cineasta: oprimido pela herança judaica e vítima de um sentimento de inferioridade permanente, estava sempre disposto a buscar alguém que o salvasse dessa condição.

O encontro sempre terá, portanto, algo de mágico, desde que o roteirista Isaac Davis, que vive dentro de um filme, “Casablanca”, imaginando-se formidável como Humphery Bogart, é abandonado pela mulher. A solidão o leva para perto do amigo Dick e de sua amante, Mary.

Enquanto tentam tirá-lo da situação de abandono, Dick se ocupa mais dos negócios do que de Mary. E ela começa a se interessar pelo desinteressante (é como ele se acha) Woody. A garota é Diane Keaton, e ela marcaria a carreira do cineasta quase tanto quanto a imagem noturna da ponte.

Mary era a mulher bonita, interessante, intelectual: doravante, a imagem da nova-iorquina. E isso seria Manhattan depois de Woody Allen  —um lugar de museus e livrarias, de filmes de arte e artistas, de intelectuais e falsos intelectuais.

Mais do que tudo, um lugar onde tudo pode acontecer. Inclusive o encontro entre um gagman da televisão e uma adolescente, como acontece em “Manhattan”.

Admita-se: a magia do encontro resiste até mesmo à sem-gracice de Mariel Hemingway. Nesse filme, o inusitado do encontro ajudava a consagrar a cidade como lugar anticonvencional (algo que podia em círculos menores desde o pós-Guerra, com os beatniks, os músicos de protesto, os alunos da Julliard etc.).

Essa imagem de uma Nova York diversa, onde se encontram o intelectual e o imigrante, o rico e o pobre, o boçal e o professor, o sábio e o ingênuo, contrasta com suas incursões a Los Angeles, pátria, na sua visão, da superficialidade triunfante (prova recente: “Café Society”) .

Talvez nenhum outro filme expresse melhor essa visão do que “Tiros na Broadway”, no qual um dramaturgo tão ambicioso quanto desprovido de talento é salvo de sua incompetência por um pequeno gângster, de poucas letras, mas dotado de um sentido dramático agudo.

Todas as ideias de Woody Allen circulam por Nova York: a mistura de pessoas diferentes, a psicanálise, a força do acaso e mesmo o amor por Paris herdado dos escritores do entre-guerras.

Todas fixaram a imagem da cidade como lugar de encontros amorosos mediados por ideias e estudos. Lugar de encontros onde o paradoxal e o acaso se dão as mãos.

É com Woody Allen que se pode pensar, enfim, em Nova York como a capital do mundo, o lugar onde tudo acontece. Dela Manhattan será, claro, o coração.

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