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Livros

Júlia Lopes de Almeida reitera protesto pela emancipação feminina

Embora a narrativa aparente se desenvolver em torno de um homem, mulheres dominam a história em A Falência

A escritora Júlia Lopes de Almeida - Reprodução
JULIANA DE ALBUQUERQUE

A Falência

  • Preço R$ 34,90 (304 págs.)
  • Autor Júlia Lopes de Almeida
  • Editora Penguin Companhia

Nascida no Rio de Janeiro em 1862, Júlia Lopes de Almeida inscreve-se em nossa história como uma das idealizadoras da Academia Brasileira de Letras. Havendo produzido vasta obra, incluindo livros infantis. Das suas peças teatrais, contos e romances ressalta-se a preocupação com a vulnerabilidade da mulher na sociedade da época. 

É neste sentido de observação e crítica social focada no feminino, que os romances de Júlia Lopes de Almeida, destacando-se “A Falência” — editado em 1901— podem ser equiparados aos esforços de escritoras do início do século passado, a exemplo da americana Edith Wharton, famosa por títulos como “A Casa da Alegria” (1905) e “A Idade da Inocência” (1920), nos quais as protagonistas se defrontam com a gradual perda de privilégios sociais, o declínio financeiro e a solidão por verem submetidos os seus destinos à instituição do casamento. 

Outro importante ponto de comparação entre as duas autoras é a polêmica que as suas obras suscitam na crítica feminista que, embora festeje o sucesso das suas empreitadas literárias, questiona os limites das suas visões de mundo; apontando em seus textos uma atitude ainda bastante conservadora em relação à condição da mulher e de outras minorias. O que parece ser a opinião da crítica Nelly Novaes Coelho, para quem a obra de Júlia Lopes de Almeida: “[...] confirma a ideologia dominante e até mesmo reforça a dualidade contraditória com que a tradição estigmatizou a mulher.”

No entanto, ao estudar “A Falência”, tive a impressão de que tal dualidade não revelaria uma hesitação da autora em relação ao projeto de emancipação feminina. Desempenhando, ao invés disso, importante função estilística.

Ora, a dualidade, da qual se queixa Novaes Coelho, emprestaria maior realismo à construção das personagens da autora, estabelecendo um jogo de posturas e reações antagônicas, útil à reflexão das leitoras contemporâneas: tanto sobre as suas próprias vidas, como sobre os obstáculos que aquela geração de mulheres teve de enfrentar para que pudéssemos, agora, usufruir daquilo que hoje damos por certo. Por exemplo o direito ao voto, o acesso à educação e ao mercado de trabalho.

Assim, embora a narrativa do livro aparente se desenvolver em torno da falência de Francisco Teodoro —um português de origem humilde que amealhara alguma fortuna no comércio de café do Rio de Janeiro—, são as mulheres da sua casa que dominam a história com dramas que passam despercebidos do personagem masculino. 

Camila, a esposa de Teodoro, busca a satisfação amorosa que lhe fora negada por um casamento de conveniência. Nina, a sobrinha pobre, que trabalha para os tios, vive em  constante conflito com a invisibilidade imposta por suas origens. Assim como Sancha, a jovem negra que trabalha para as tias de Camila a sofrer humilhações e surras cotidianas.

Por fim, há personagens que encontram na recente adversidade familiar a chance de libertar-se dos falsos privilégios atribuídos à mulher pela vida burguesa. Como Ruth, que ao educar a sua sensibilidade através de uma formação musical, passa a questionar a sujeição de Nina pela família e a defender Sancha da violência.

Mais tarde, após a falência e suicídio do seu pai, Ruth terá na música uma forma de ajudar no sustento da casa, ministrando aulas de violino. O que reitera o protesto de Júlia Lopes de Almeida de que o verdadeiro porto seguro da mulher está na educação e no desenvolvimento das suas capacidades intelectuais

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