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Cinema

'La Cama' retrata epílogo conjugal de maneira simples, mas impactante

Longa de estreia Mónica Lairana na direção prefere fazer perguntas a respondê-las

Sandra Sandrini e Alejo Mango em 'La Cama'

Sandra Sandrini e Alejo Mango em 'La Cama' Divulgação

Naief Haddad

LA CAMA

  • Quando Estreia nesta quinta (25)
  • Classificação 16 anos
  • Elenco Sandra Sandrini e Alejo Mango
  • Produção Argentina, Alemanha, Brasil, Holanda, 2017
  • Direção Mónica Lairana

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O dicionário Houaiss apresenta mais de dez significados para o adjetivo “simples”. Pode expressar, por exemplo, aquilo que evita ornamentos dispensáveis.

Nesse sentido, o filme argentino “La Cama” é radicalmente simples. São só dois personagens, Mabel (Sandra Sandrini) e Jorge (Alejo Mango), ambos na casa dos 60 anos. Num único cenário, o sobrado em que vivem juntos há três décadas, eles passam as últimas horas antes da separação. Não há música.

O adjetivo também quer dizer aquilo que é trivial, ordinário. Ou isento de significações secundárias. Sob esse viés, o drama argentino nada tem de simples, a começar pelo sexo.

O filme começa na cama, onde o homem e a mulher se envolvem em movimentos de desejo, raiva, ternura e frustração. Embora nenhum gesto seja exatamente coreografado, a relação se insinua como um balé, em que pouco se fala, mas cada parte do corpo expressa sentimentos que se contradizem continuamente.

Nas cenas seguintes, Mabel e Jorge preparam a mudança. Dividem os LPs, as meias e os remédios; separam as roupas; desmontam as estantes.

É evidente que há ressentimento, sobretudo dela em relação a ele, mas esse epílogo conjugal também é regido por nostalgia e cumplicidade. Eles andam nus ou só com roupa íntima pela casa, sem nada que um possa ocultar do outro. A certa altura, Jorge machuca o pé, e Mabel o enfaixa com delicadeza. 

Se a ligação entre eles ainda é forte, por que a separação? “La Cama” prefere fazer perguntas a respondê-las.

Com apenas um casal em cena, que transita entre tantos estados emocionais, este é um filme que exige muito dos atores. Alejo Mango demonstra precisão nos detalhes, mas quem domina “La Cama” é Sandra Sandrini, extraordinária como uma mulher em dúvida entre acolher ou rejeitar seu homem, seu corpo, seu passado.

Sandrini tem feito boa carreira no cinema argentino em filmes como "No te Mueras sin Decirme adónde Vas" (1995), de Eliseo Subiela, e chega ao ápice neste papel, inalcançável para uma atriz menos corajosa e sensível.

Além disso, não é desprezível o fato de “La Cama” contar com uma atriz experiente na direção, alguém capaz de conduzir tão bem seus atores. Depois de mais de 20 filmes diante das câmeras, Mónica Lairana dirige pela primeira vez um longa-metragem. É uma estreia de impacto. Simples assim.          

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