Descrição de chapéu

Nando Reis consegue ser um pouco autoral no universo de Roberto Carlos

Em ótimo novo álbum, artista dá um atestado de que não quis fazer uma simples homenagem ao rei

Thales de Menezes

NÃO SOU NENHUM ROBERTO, MAS ÀS VEZES CHEGO PERTO

  • Quando A partir de 19/4 nas plataformas digitais
  • Preço R$ 24,90 (CD)
  • Autor Nando Reis
  • Gravadora independente

"Não Sou Nenhum Roberto, Mas Às Vezes Chego Perto", a ser lançado nesta sexta (19), além de ter esse título bem sacado, não se trata de um tributo convencional a Roberto Carlos. Nando Reis surpreende num disco que injeta novos rumos a canções mais do que conhecidas. Tem um frescor semelhante ao de um disco autoral.

A intersecção de Roberto com a música descaradamente brega, no universo de Reginaldo Rossi ou Odair José, é reforçada em "Alô". A faixa que abre o disco é a mais recente do repertório escolhido. A gravação original, de 1994, ganha tons dramáticos com os metais que Nando inclui, num arranjo impecável.

"De Tanto Amor", uma das três músicas tiradas do álbum de 1971 que muitos consideram o melhor da carreira do Rei, tem instrumental enxuto e uma grande interpretação de Nando. Numa trança delicada, sua voz se encaixa entre o violão de Edgard Scandurra e a flauta de Simone Julian.

Do mesmo álbum de Roberto estão duas faixas que, de tão poderosas em melodia e harmonia, são pouco modificadas nas versões de Nando. São as conhecidíssimas "Amada Amante" e "Todos Estão Surdos".

A primeira tem apenas um pouco mais de peso na bateria de Pupillo e um solo quase roqueiro de Scandurra na guitarra, mas permanece fiel à condição original de clássico para dançar colado no bailinho.

Apesar da injeção criativa de percussão com Pupillo e Tomas Harres, "Todos Estão Surdos" preserva a pulsação pesada de funk que transformou essa canção de Roberto em objeto de culto para quem enxerga ali a maior aproximação do cantor com a black music.

O álbum de 1979, em que despontava o hit "Na Paz do Seu Sorriso", fornece material para duas adaptações de Nando. Mais umas doses de breguice são trazidas pelos teclados de Maurício Fleury à "Me Conte a Sua História", que tem Nando declamando parte da letra. Em "Abandono", metais e percussão dão uma cara moderna a uma canção que é mais tranquila na versão de Roberto.

A balada "Vivendo por Viver", que vem do álbum de 1978, inclui violinos e violas. Dentro do projeto todo, essa música pontuada por uma bateria mínima acaba se tornando a mais parecida com a produção autoral de Nando. Se colocada em outro álbum do cantor, soaria naturalmente como algo de seu cancioneiro.

O outro disco de Roberto que costuma rivalizar com o de 1971 nas votações de seu melhor trabalho é aquele lançado em 1977. Ao contemplá-lo nas regravações, Nando abre mão de clássicos como "Outra Vez", "Amigo", 'Falando Sério" e "Cavalgada". A escolhida é "Nosso Amor", com sua letra triste emoldurada pelo violão bem tocado por Nando. Tão forte no original quanto na regravação, não é de Roberto e Erasmo. Mauro Motta e Eduardo Ribeiro são os autores dessa pérola romântica.

"Você em Minha Vida", de 1976, é uma das melhores letras da extensa obra de Roberto e Erasmo. Versos imortais como "você foi meu sorriso de chegada e minha lágrima de partida" fazem dessa faixa a mais impecável do disco de Nando. Um hit radiofônico em potencial.

"Procura-se", de 1980, é provavelmente a menos conhecida entre as faixas. A intervenção dos teclados de Maurício Fleury deixa a música um pouco afastada do registro original, e Nando tem ali outro grande momento vocal.

Mas as grandes desconstruções da obra de Roberto vem em duas canções de, digamos, cunho religioso. Autor da iconoclasta "Igreja", do álbum dos Titãs "Cabeça Dinossauro", Nando reservou surpresas para "Nossa Senhora" e "A Guerra dos Meninos".

De 1993, o quase hino "Nossa Senhora" é um símbolo do grande número de canções católicas de Roberto. Nando opta por não cantar a letra, apenas fica num "na na na na na" durante toda a música, o que ressalta a força da melodia e o deixa livre do discurso carola do original.

"A Guerra dos Meninos", de 1980, ganha a condição de mudança mais radical do álbum. Com trombones e trompetes em andamento lento e pesado, Jorge Mautner declama a letra, com a dramaticidade que só esse decano da MPB transgressora pode conseguir.

Encerrando o disco com essa faixa, Nando praticamente dá um atestado de que não quis a simples homenagem a Roberto. Seu novo disco é ótimo e consegue ser um pouco autoral, dentro do universo das músicas do Rei.

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