Descrição de chapéu Moda

Novatos levam frescor e esquisitice ao clima pasteurizado da SPFW

Cacete Company, Neriage, Aluf e Handred arejam ambiente batido do evento dentro e fora da passarela

Modelo apresenta criação da Cacete Company durante a semana de moda de São Paulo, em abril de 2019

Modelo apresenta criação da Cacete Company durante a semana de moda de São Paulo, em abril de 2019 Rahel Patrasso/Xinhua

Pedro Diniz Giuliana Mesquita
São Paulo

O cenário da São Paulo Fashion Week está alterado. Não apenas por causa da mudança de espaço —da Bienal, no parque Ibirapuera, para a Arca, na Vila Leopoldina, tampouco pela inserção de novos nomes no calendário. Basta um giro pela área onde ficam os fumódromos e food trucks para notar rostos bem diferentes do que se costumava ver no evento dois anos atrás.

Afora fashionistas e blogueiras, há uma turma de gente ainda desconhecida no dia, mas que movimenta a noite paulistana, como a DJ Milian Dolla, o performer e modelo Loïc Koutana —um dos destaques da festa Mamba Negra— e as cantoras Urias e Jup do Bairro.

Todos caminham pela selva fashionista devidamente trajados com looks que fogem das tendências das passarelas. O estilo das personalidades que batem ponto em boates e inferninhos é ousado e não tem medo de chocar.

Se no auge do clubber dos anos 1990 os fashionistas de então, fascinados pela cultura underground nova-iorquina, pareciam todos iguais, essa nova geração quer se diferenciar do amigo ao lado.

A customização e a identificação com o discurso são medidas a peso de ouro.

Que o diga a Cacete Company, que trouxe essa turma ao evento. A marca se apresentou pela segunda vez na São Paulo Fashion Week nesta quinta-feira (25), com looks que, assim como os de seus convidados, subvertem costumes.

Biquínis cortininha para eles e para elas apareceram ao lado de casacos que imitam sacos de lixo pretos.
O look nessa cor, que abriu o desfile, tinha calça ampla, gola alta e jaqueta. É um padrão para quem frequenta as festas do circuito, principalmente se combinado aos óculos inspirados naqueles do tipo realidade aumentada, ao estilo Matrix, concebido pelos estilistas Raphael Ribeiro e Tiago Carvalho.

Engana-se quem acha que os novatos vivem apenas do close. Além de mudar a cara e a maquiagem do evento, adicionaram frescor ao batido minimalismo de sempre. Aluf, Neriage e, principalmente, Handred, são bons exemplos dessa corrente.

Pela segunda vez no Projeto Estufa, braço da SPFW para novos talentos, a estilista Ana Luisa Fernandes repete seu estudo apresentado na temporada passada sobre silhuetas e volumes. Babados, plissados e calças amplas de seda em tons esmaecidos fazem parte do imaginário de sua Aluf.

Nesse mesmo contexto, a Neriage mostra que nem só de desfiles-manifesto se faz uma semana de moda. 

Estreante no evento, Rafaella Caniello começou a construir a identidade de sua marca ainda na Casa de Criadores, evento de desfiles autorais que a catapultou desde os tempos de faculdade.

Do time de designers que prefere não trabalhar com tendências efêmeras, Rafaella apresentou uma coleção de plissados e drapeados.

Modelos apresentam coleção da Neriage na São Paulo Fashion Week, em abril de 2019
Modelos apresentam coleção da Neriage na São Paulo Fashion Week, em abril de 2019 - Nelson Almeida/AFP

Criticada por parte dos fashionistas no passado porque sua roupa era “impraticável”, desta vez ela não apostou na imensa quantidade de tecido utilizado outrora nas confecções, com peças de até cinco quilos cada uma.

Já a Handred explorou o minimalismo num tom de brasilidade. As cores dos orixás e as formas amplas que identificam a marca se misturam ao emaranhado de estampas com temas religiosos.

A tesoura afiada do estilista André Namitala conduz um jogo de linhas, estampas e bordados contidos, nada exagerado, para falar sobre as raízes da cultura negra no país.

É desses temas arriscados, que facilmente caem na caricatura branca sobre o universo negro. Mas o estilista não tenta europeizar a imagem, confia nos orixás, nos búzios pregados na roupa e em seu casting majoritariamente negro para fazer uma das coleções mais bonitas nesse meio de temporada paulistana.

Carioca, a Handred é da ala que traz à SPFW os fashionistas da nova geração, como o casal de atores Chay Suede e Laura Neiva. Sentados na primeira fila com blusas iguais, tipo par de vasos, traduziam a imagem fresca que, agora, o evento quer tomar de volta.

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