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Cinema

'O Tradutor', com Rodrigo Santoro, é feito para emocionar

Baseado em história real, filme peca pelo excesso de didatismo e caráter edificante

Cena de 'O Tradutor'

Rodrigo Santoro em cena de 'O Tradutor' Divulgação

Thales de Menezes

O TRADUTOR (Un Traductor)

  • Quando Estreia nesta quinta (4)
  • Classificação 12 anos
  • Elenco Rodrigo Santoro, Yoandra Suarez, Maricel Álvarez
  • Produção Cuba/Canadá, 2018
  • Direção Rodrigo e Sebastián Barriuso

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Rodrigo Santoro segue trilhando um caminho sólido no cinema internacional. Enquanto ganha projeção em blockbusters como "300" e séries badaladas, de "Lost" a "Westworld", reserva espaço para produções pequenas e interessantes como "O Tradutor".

O longa de produção cubana e canadense é dirigido pelos irmãos Rodrigo e Sebastián Barriuso e conta a história real do pai deles, na Havana do final dos anos 1980. Santoro, falando espanhol com desenvoltura, está no papel principal.

Ele interpreta Malin, um professor universitário de literatura russa que um dia, ao chegar para dar aulas, é avisado que foi remanejado para outro local de trabalho. Apenas com o endereço na mão, ele se desloca para lá.

Sua surpresa é grande ao perceber que chega a um hospital. Percorrendo os andares do prédio sem saber a quem se dirigir, é abordado por uma funcionária e levado a um quarto no qual uma criança passa por tratamento de câncer. Sem tempo para reagir, ele recebe a difícil tarefa de contar à mãe, em russo, que as tentativas de cura não surtiram efeito e morte da criança é inevitável.

Esse começo impactante mostra qual será o novo cotidiano de Malin: servir de tradutor no hospital para onde são levadas jovens vítimas de contaminação no incidente da usina nuclear soviética em Tchernobil, em 1986.

Numa época de colaboração forte entre os dois países, ressaltada pelo filme com cenas reais de encontros de Fidel com dirigentes soviéticos, a oferta de tratamento tem um caráter mais próximo do jogo político do que realmente representar uma chance maior de sobrevivência dos garotos.

É um filme edificante, feito para emocionar. Nessa proposta, é bem adequada a atuação de Santoro. Ele acerta na introspecção de Malin, que passa a questionar a eficiência do regime ao ser tirado de sua vida tranquila para uma sucessão de encontros diários que são de partir o coração.

Para as plateias mais jovens, que têm contato com uma decadência financeira que assola a Cuba atual, pode surpreender o bom padrão de vida do personagem, morando em uma casa ampla e elegante.

O roteiro tem a preocupação de exibir Malin como parte de uma classe que teve ascensão com seu trabalho intelectual e cuja derrocada econômica  só veio anos mais tarde.

Na discussão política, o filme é conduzido pelas conversas de Malin com a mulher e os funcionários do hospital, principalmente a enfermeira Gladys, papel da ótima Maricel Álvarez.

O resultado final é prejudicado por dois elementos. Um deles é o excesso de didatismo. Na intenção de oferecer ao espectador uma visão completa do regime político cubano, alguns diálogos carregam tanta informação que não soam naturais. Os personagens às vezes parecem estar numa reunião de célula partidária.

O outro problema é justamente o caráter edificante. Malin precisa abrir mão de tentar uma transferência do lugar, e abandona também sua tese de doutorado, para ler histórias para as crianças doentes.

Algumas surpresas na parte final não empolgam. "O Tradutor" é um relato correto de um trecho da história cubana, mas não vai muito além de uma chance para Rodrigo Santoro exibir uma atuação bem convincente.

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