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Quem nunca viu um filme da Marvel não tem a menor chance com 'Vingadores: Ultimato'

Lançamento não é um filme, mas o ápice final de uma história de 22 episódios, iniciada em 2008

Rodrigo Salem
Los Angeles

Nas histórias em quadrinhos, há eventos grandiosos que as editoras americanas planejam a cada dois, três anos para reformular personagens do zero. Motivados por crises de vendas ou pelo desgaste de décadas de narrativa, esses eventos que promovem o fim e o recomeço de todo um universo são chamados de crossovers.

“Vingadores: Ultimato” é o reflexo cinematográfico dessa mania dos gibis.

O longa dos irmãos Anthony e Joe Russo não é um filme, mas o ápice final de uma história iniciada em 2008 com “Homem de Ferro”, de Jon Favreau, e que soma 22 capítulos.

Não dá para ignorar o fato. “Ultimato” talvez exija uma nova espécie de julgamento crítico, pois o objeto da crítica em si é produto de um feito inédito no cinema: nunca houve um universo inteiramente interligado por diversos filmes solo que, ao longo dos anos, foram dando pistas de um fim passado em um futuro no qual ninguém teria certeza que existiria.

Nesse sentido, os irmãos Russo conseguiram fechar essa primeira fase do Universo Cinematográfico Marvel de maneira apropriada e divertidíssima.

Mas isso não isenta “Ultimato” dos seus defeitos —o principal deles é a trama baseada nas viagens no tempo dos heróis sobreviventes ao estalar de dedos de Thanos (Josh Brolin), em busca das Joias do Infinito. Isso não faz o menor sentido e foge do tom do longa, apesar de o roteiro tratar do assunto entre o cômico, citando “De Volta para o Futuro” (1985), e o pseudocientífico.

Paradoxalmente, a escolha de reviver diversos momentos icônicos dos filmes anteriores da Marvel é o grande trunfo do novo “Vingadores”. É quando a suspensão da descrença entra em cena ao atacar o coração de quem acompanha esses heróis mais de uma década: revemos “Soldado Invernal” sob uma nova perspectiva, principalmente uma certa cena antológica no elevador, voltamos a rir com o primeiro “Guardiões da Galáxia” e lembramos por que Robert Downey Jr. é a alma desse universo.

O estúdio assume um risco impensável há mais de uma década, que é aceitar que todo o público já entra nos cinemas com a bagagem da Marvel nos ombros. Quem nunca viu um filme do estúdio não tem a menor chance de compreender ou gostar de “Ultimato”.

Seria como ligar a televisão para ver o último capítulo de “Game of Thrones” sem saber o que diabos é Westeros. Se existe essa exigência, isso é um defeito de um filme como arte isolada. Mas,  propositalmente, os diretores, roteiristas e produtores não fizeram um filme.

“Vingadores: Ultimato” potencializa a monstruosidade que virou a Marvel Studios. O início é surpreendente e pessimista, deixando o espectador perdido —no bom sentido. Seu humor funciona na maioria das cenas, mas é muito exagerado em diversas sequências protagonizadas pelo Hulk inteligente de Mark Ruffalo.

O politicamente correto da Disney surge forçadamente no fim. A ação demora para acontecer, mas é grandiosa e espetacular como somente o cinemão é capaz de fornecer. A última hora é uma montanha-russa de batalhas e lágrimas que faz seu cérebro deixar Godard, Orson Welles e Tarkovski um pouco de lado.

Mas a força do longa está nos pequenos momentos. Downey Jr. (Homem de Ferro) e Chris Evans (Capitão América) voltam a ser os grandes protagonistas do épico. Os dois atores fecham com chave de ouro essa primeira fase da Marvel, lembrando por que nos apaixonamos por heróis defeituosos e impuros.

É um fim, é um recomeço, é um crossover, é um evento. Goste ou não, “Vingadores: Ultimato” é algo novo e diferente, mas também é cinema até a medula.

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