Descrição de chapéu

Relatos de uma mal-ajambrada na São Paulo Fashion Week

A regra é fugir completamente da regra; melhor ainda se tiver uma história por trás

Modelos desfilam coleção da estilista Fabiana Milazzo na São Paulo Fashion Week - Nelson Almeida - 23.abr.19/AFP
Flávia Boggio
São Paulo

Quando este jornal me convidou para ir à SPFW, queriam “alguém totalmente distante do mundo da moda”. Achei um pouco ofensivo.

Chegando lá, vi que estavam cobertos de razão. Eu era a pessoa mais mal-ajambrada, acima do peso e com dentes menos brancos. No espelho do banheiro percebi que, além do look totalmente fora do contexto, tinha molho de tomate na minha blusa.

Como a necessidade é a mãe da invenção, resolvi aproveitar minha deficiência fashionista e abraçar a missão. Eis algumas conclusões:

O frequentador padrão da SPFW não segue as últimas tendências da moda. Pelo contrário. A regra é fugir completamente da regra. Melhor ainda se tiver uma história por trás. 

Se, até ontem, a papete era um tipo de calçado pavoroso, agora é item obrigatório, uma representação do tosco chique ou, como dizem por lá, “high-low”.

Um vestido de algodão faz sucesso se combinado a uma galocha de açougueiro. Basta dizer que simboliza o encontro entre a infância e a morte.

Esse é o segredo do mundo fashion. Assim como na gastronomia, na qual tudo se “gourmetiza”, na moda é possível “fashionizar” qualquer coisa para despertar o desejo de compra. É só contar uma boa história.

Não basta criar uma coleção de roupas. Ela precisa ser inspirada no livro “Admirável Mundo Novo”, com influências de Maria Antonieta e toques de elevado Costa e Silva.

Mas voltando à minha missão. Estava à procura de algum lugar para me sentar que não fossem as gangorras, “símbolo do colaborativismo”, espalhadas pelo lounge (mesmo porque não tinha ninguém do meu peso para compartilhar uma), quando me chamaram para conhecer o backstage de um desfile. Entrei em um novo universo, com meninas lindas, magras e muito altas, que pareciam elfas do Senhor dos Anéis (eu era o Frodo).

Na outra sala, a simpaticíssima estilista Fabiana Milazzo explicava sua criação. Inspirada na obra de Vik Muniz, a coleção transformava peças de roupas em objetos. Um bordado virava arame farpado. Um vestido na verdade era uma gaiola. Um anel simulava um pedaço de chocolate. Parecia algo sem propósito. Mas, na hora do desfile, todos os arames, gaiolas e chocolates fizeram sentido. 

Enquanto as meninas-elfas caminhavam, eu, a Froda mal-ajambrada, me emocionava ao som da música "Tô", do Tom Zé. O verso “eu tô te explicando para te confundir” resume bem o espetáculo. As histórias por trás das roupas nos confundem mais do que explicam. Mesmo assim, desejamos comprar tudo.

Pena que os vestidos custam, em média, R$ 15 mil. Vou me contentar com a blusa com molho de tomate e dizer que, por trás, é uma grande homenagem às minhas raízes calabresas.

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