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Roberto Saviano estuda processo criminal para sua estreia na ficção

Jornalista italiano jurado de morte pela máfia conta a história de gangue violenta em 'Os Meninos de Nápoles'

O jornalista e escritor Roberto Saviano, que vive sob proteção policial 24 horas - Jeff Pachoud/AFP
São Paulo

Um menino é esmurrado, algemado e deitado no chão à força, enquanto outro se agacha sobre ele e começa a defecar em seu rosto, aos gritos de "bom apetite!". "Urrava impotente, para depois ficar quieto assim que viu o segundo pedaço sair do ânus de Nicolas. Um olho escuro peludo que, com duas contrações, dividiu a serpente de excremento em dois pedaços arredondados."

A cena indigesta, que abre o livro "Os Meninos de Nápoles", dá o tom do que está por vir nesta que é a primeira obra de ficção do italiano Roberto Saviano.

O escritor e jornalista Saviano é o autor de "Gomorra", um tour de force investigativo sobre a Camorra, a máfia de Nápoles. "Gomorra" teve milhões de exemplares vendidos e foi transformado em filme pelo diretor Matteo Garrone. O livro rendeu a Saviano um juramento de morte da Camorra, e ele vive sob proteção policial ininterrupta.

No romance "Os Meninos de Nápoles", Saviano conta a história de um grupo de garotos que formam uma gangue violenta para conseguir comprar as roupas de marca e celulares bacanas que veem no Instagram e no Facebook dos meninos ricos. Essa quadrilha de adolescentes roda pelas ruas em suas lambretas, roubando, atirando com metralhadoras e traficando drogas.

O livro também foi transformado em filme, "La Paranza dei Bambini", que ganhou o prêmio de melhor roteiro no Festival de Berlim deste ano.

A obra se baseou em uma história real —Saviano estudou os autos do processo contra um grupo criminoso de adolescentes que agia em Nápoles, no sul da Itália.

"O que narrei é o que realmente acontece em Nápoles, e não só em Nápoles. São garotos, adolescentes, rapazes muito novos, com hábitos, pulsões, desejos, sonhos, pensamentos e medos de adolescente, mas também são criminosos", diz Saviano, em entrevista por email a esta repórter.

"E eles viram criminosos quase por brincadeira, para poder comprar o que veem os 'rich kids' do Instagram e seus coetâneos mais afortunados usarem, para entrar nos lugares que cobram € 500 por uma mesa ou nem se chega perto. E viram criminosos porque não querem se matar de trabalhar como seus pais, para chegar ao final do mês frustrados e sem um tostão."

Esses meninos de Nápoles não pensam no futuro, querem um presente eterno, com acesso todos os seus sonhos de consumo e de autoafirmação. O lema deles, diz Saviano, é: "Se morrer aos 90 anos, você é centenário; se morrer aos 21, é lendário".

Na visão do italiano, foi um desafio escrever ficção depois de anos dedicados ao jornalismo investigativo. "Mas minha intenção era me afastar da crônica jornalística e tomar aquelas liberdades que só a ficção permite, contar os pensamentos, intuir as alegrias, imaginar os medos."

Sua própria vida parece ficção. Faz 13 anos que Saviano, 39, vive se mudando de uma casa para outra, acompanhado de homens armados. Toda vez que volta a Nápoles, onde nasceu, precisa dormir na delegacia, o único lugar considerado seguro.

"Gostaria de não ser banal, mas minha vida, no geral, é um inferno que não desejo ao meu pior inimigo."

No ano passado, o ministro do Interior italiano, Matteo Salvini, ameaçou retirar a escolta de Saviano, crítico contumaz do político de direita. "É intolerável que exista alguém no governo que lance em descrédito uma pessoa que, para escrever, põe em risco a própria vida", afirma.

O italiano lembra como inspiração dois ícones do novo jornalismo americano, Tom Wolfe e Truman Capote, e as jornalistas Anna Politkovskaia, da Rússia, e Daphne Caruana Galizia, de Malta.

As reportagens de Politkovskaia sobre o conflito na Tchetchênia e a corrupção no mundo político russo lhe renderam várias ameaças. Ela foi assassinada dentro do elevador de seu prédio em 2006, em um crime até hoje mal explicado.

A jornalista maltesa investigava corrupção e lavagem de dinheiro em seu país. Morreu há dois anos em um atentado com carro bomba.

Os Meninos de Nápoles - Vol. 1 (La Paranza dei Bambini)

  • Preço R$ 59,90 (408 págs.)
  • Autor Roberto Saviano
  • Editora Companhia das Letras
  • Tradução Solange Pinheiro

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