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Só há um final perfeito para 'Game of Thrones'; saiba qual é

Segundo episódio da última temporada da série vai ao ar neste domingo

Jon (Kit Harington) e Daenerys (Emilia Clarke) na oitava temporada de 'Game of Thrones'
Jon (Kit Harington) e Daenerys (Emilia Clarke) na oitava temporada de 'Game of Thrones' - Divulgação
Alysssa Rosenberg

Muita coisa está em jogo na temporada final de “Game of Thrones”. E não me refiro à questão de quem vai acabar ocupando o Trono de Ferro de Westeros.

Estou falando do fato de que o épico de fantasia da HBO está diante do dilema de todas as séries que de fato geram discussão e que é especialmente urgente nesta chamada Era de Ouro da TV. Os criadores da série, David Benioff e D.B. Weiss, vão conseguir concluir a história de maneira que satisfaça os fãs (alguns dos quais anseiam por essa conclusão desde 1996, quando George R.R. Martin publicou “As Crônicas de Gelo e Fogo”), e, mais importante, de maneira que seja fiel às melhores qualidades da série?

Tentar alcançar essas duas metas por vezes contraditórias é uma tarefa dificílima, mesmo para as melhores séries. “Sex and the City” e “Breaking Bad” tentaram, mas não conseguiram —a primeira por apostar num final de conto de fadas, a segunda por deixar que seu professor secundário convertido em traficante de drogas se reinventasse como herói de ação, mesmo depois de reconhecer que ele era um monstro.

“The Shield” acertou o tom ao dar um castigo merecido, porém incompleto, ao policial corrupto Vic Mackey (Michael Chiklis) de uma maneira que destacou tanto o valor da persistência de seus perseguidores quanto a dificuldade em chegar a um acerto de contas. “Família Soprano” virou imortal e rendeu mil especulações com seu final agora infame em que a tela ficou preta.

Apesar dos anos que já passei lendo, assistindo e escrevendo sobre “Game of Thrones”, não sei como a série vai terminar. Mas sei como deveria terminar para chegar ao fim com dignidade: sem ninguém ocupando o Trono de Ferro.

Existem muitas maneiras de julgar “Game of Thrones” —desde as realizações técnicas e logísticas que produziram suas sequências de batalha deslumbrantes e seus momentos mágicos até a alquimia de casting, que reuniu as atrizes de primeira viagem Sophie Turner e Maisie Williams como as irmãs Sansa e Arya Stark, passando pela trama brilhante, tortuosa e complexa que George R. R. Martin legou a Benioff e Weiss.

Mas a razão por que “Game of Thrones” mereceu toda a discussão e tanto trabalho de investigação na internet foi revelada pouco a pouco ao longo da primeira temporada.

A decadência do rei Robert Baratheon (Mark Addy) mostra muito claramente que ser capaz de afundar o peito das pessoas com martelos de guerra não é garantia alguma de que você vai saber governar, amar sua mulher ou encontrar um novo caminho para chegar à meia-idade com dignidade. A crueldade espantosamente casual do cunhado do rei, Jaime Lannister (Nikolaj Coster-Waldau), e a ameaça sombria de Gregor Clegane (Hafþór Júlíus Björnsson) assinalam que a armadura do cavaleiro é um enfeite, não uma prova de bom caráter.

O momento icônico em que é decapitado Ned Stark (Sean Bean), nosso bem-intencionado suposto herói, não foi apenas uma virada feroz e inesperada. Foi o momento em que “Game of Thrones” realmente começou a operar sua desconstrução brutal —com ênfase no “brutal”—da nossa concepção "disneyficada" dos contos de fada em geral e, mais especificamente, dos ideais da cavalaria medieval.

Esse compromisso em virar um gênero inteiro implacavelmente do avesso é a razão pela qual espectadores e críticos podiam falar de “Game of Thrones” como sendo, na descrição memorável do ator Ian McShane, mais do que apenas uma história de “tetas e dragões”.

Sim, a série teve muitas mulheres nuas, mas também teve insights inteligentes sobre como o olhar de uma pessoa –e da sociedade— pode passar de admirador a rançoso. A série mostrou estupros com frequência, mas abordou o tema de modo tanto individual quanto sistêmico, explorando como a tolerância com a violência sexual pode desequilibrar sociedades inteiras.

Entendo que seja tentador fazer apostas sobre quem vai ocupar o Trono de Ferro. Mas —se você está torcendo por uma versão de “Game of Thrones” que acompanhe a exploração às vezes desigual feita pela série de grandes ideias e argumentos sobre as instituições e tradições que moldam as pessoas— o único final feliz possível é um que termine com o trono infernal ou abandonado ou derretido até virar escória.

Se “Game of Thrones” terminar com Jon Snow (Kit Harington) governando Westeros, a série poderia igualmente bem voltar atrás no tempo e colar a cabeça de Ned Stark de volta ao corpo, porque terá desmentido todos seus próprios esforços para inverter nossas expectativas em relação a esse tipo de história.

Se Daenerys Targaryen (Emilia Clarke), Sansa Stark (Turner) ou Cersei Lannister (Lena Headey) assumirem o trono, a série terá acabado um nível acima disso, como uma versão feminista sinistra de uma história canônica, possivelmente com uma anti-heroína em lugar de uma heroína legítima. Mas ainda assim seria algo que já vimos antes.

Agora, para “Game of Thrones” ser fiel a seu argumento, seus protagonistas terão que ser destruídos pelos sistemas que tentaram transcender, ou então terão que dar lugar a algo inteiramente novo. Se Daenerys seguir a tradição de seus ancestrais e enlouquecer, se Jon tiver que assassiná-la ou se a massa confusa da humanidade não conseguir resistir à disciplina implacável e gelada dos Caminhantes Brancos, estará completo o repúdio ao sonho de que uma pessoa boa possa nos salvar, ao qual “Game of Thrones” deu início em sua primeira temporada.

Mas existe uma alternativa. O longamente anunciado título do livro final de George R. R. Martin da série é “A Dream of Spring” (Um sonho de primavera). A ideia original era que o livro fosse intitulado “A Time for Wolves” (Um tempo para lobos), que pareceria anunciar um renascimento da Casa dos Stark e seus lobos gigantes.

Mas quando o autor anunciou o novo título, em 2006, disse que “A Dream of Spring” dá uma indicação melhor do tipo de livro que quer escrever. Um final feliz para seus personagens e para os ocupantes do mundo disputado por reis em guerra, um mundo no qual já passamos tanto tempo, pode significar que nos afastemos inteiramente do Trono de Ferro, permitindo que em seu lugar brotem os rebentos esperançosos de um novo tipo de governo.

Tradução de Clara Allain

The Washington Post
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