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Cinema

'Vidas Duplas', de Olivier Assayas, extrapassa amores clandestinos

Filme fala do que a geração na faixa dos 50 anos se força a fazer para se manter igual num mundo que muda

Francesca Angiolillo

Vidas Duplas (Doubles Vies)

  • Quando Estreia nesta quinta (18)
  • Classificação 14 anos
  • Elenco Guillaume Canet, Juliette Binoche, Vincent Macaigne
  • Produção França, 2018
  • Direção Olivier Assayas

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O termo "literário" é um clichê no qual se enquadram tantos filmes franceses, nos quais o privilégio dado à palavra aparece como uma qualidade anticinemática, um defeito.

Tratemos desse aspecto como uma qualidade que permeia a produção de Olivier Assayas, ex-crítico de cinema que circula com desenvoltura, e muitas palavras, entre diferentes gêneros e, digamos, estilos.

"Personal Shopper" (2016) foi visto como hitchcockiano; ecos de Bergman pairam em "Acima das Nuvens" (2014).

De "Vidas Duplas", disse a Cahiers du Cinéma, revista onde ele começou sua carreira, que evoca o cinema do francês Roger Vadim, com seu olhar para o comportamento das personagens.

No caso, personagens de uma burguesia esclarecida que se debate com o passar do tempo —plasmado neste, como nesses outros filmes mais recentes do cineasta, na tecnologia.

Na nova trama, o embate com o tempo ganha a forma das renovações impostas ao mundo editorial, em torno do qual circulam os protagonistas.

Alain (Guillaume Canet), editor, é casado com Selena (Juliette Binoche), atriz.

Ele se recusa a publicar o novo livro de Léonard (Vincent Macaigne), autor de sua casa e marido da idealista Valérie (Nora Hamzawi), que trabalha como assessora de um político de esquerda.

As vidas dos dois casais se entrelaçam também fora do campo profissional, e as relações se complicam com a entrada em cena de Laure (Christa Theret), contratada por Alain para levar a editora que dirige a um patamar mais afinado com os novos tempos.

A questão da digitalização é o pano de fundo para a ciranda amorosa que vai se desenrolando.

Além da encruzilhada dos e-books e blogs, compõem o quadro o debate sobre exposição pública na obra de Léonard; as relações algo entediadas de Laure; e a fadiga de Selena, que não quer continuar a fazer a mesma série de TV.

Na política, o campo de atuação de Valérie, personagem que faz um contraponto discreto aos demais, as vicissitudes de um mundo digital surgem com o avatar da pós-verdade.

Parece espinhoso, e é, mas Assayas consegue equilibrar todos esses temas na tela por meio do discurso de seus personagens.

Esse discurso soa, por muitas vezes, forçado para nossos padrões --mas é crível no contexto filme de uma burguesia intelectualizada tão francesa em seu hábito de debater em jantares.

De conversa em conversa, entendemos que as vidas duplas do título não são somente uma expressão que diz respeito aos amores clandestinos dos casais.

Ela também nos fala do desdobramento que a geração hoje na faixa dos 50 se vê forçada a fazer para se manter igual num mundo que muda —como, não por acaso, diz a famosa frase de Lampedusa notabilizada em "O Leopardo", de Luchino Visconti, recuperada em um dos muitos diálogos do filme.

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