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Cinema

'A Espiã Vermelha' é filmão quadrado na concepção e frouxo na execução

Filme com Judi Dench conta história de uma antiga espiã comunista no Reino Unido

Inácio Araujo

A Espiã Vermelha (Red Joan)

  • Classificação 14 anos
  • Elenco Judi Dench, Sophie Cookson, Stephen Campbell Moore
  • Produção Reino Unido, 2018
  • Direção Trevor Nunn

A proposta é atraente: Judi Dench, legendária chefe do serviço de inteligência britânico, MI-6, nos filmes de James Bond, agora torna-se “A Espiã Vermelha” e alvo do MI-5, outro serviço secreto, também do Reino Unido.

A realidade é infelizmente menos sedutora. Estamos no ano 2000, quando o pessoal da contraespionagem bate à porta da velha senhora, Joan Stanley, acusando-a de espionagem a serviço da URSS, durante a Segunda Guerra.

Embora proteste inocência, desde o início do depoimento, Joan entrega-se a suas lembranças e, ao fazê-lo, entrega-se prematuramente. Isto é, ela passa a bola para a jovem Joan Stanley (Sophie Cookson), bela e promissora estudante de física, logo convocada a tomar parte no programa de desenvolvimento de uma bomba atômica britânica.

Antes disso, no entanto, ela já fora cooptada por Sonya, uma jovem fumante, para assistir às pregações de Leo, jovem fumante. E basta saber que são dois fumantes para concluirmos que boas coisas não são. São, aliás, comunistas a serviço da 3ª Internacional, isto é, Moscou.

Leo trata de seduzir Joan e pronto: o registro da espionagem vai ser escanteado em favor das relações românticas. Tão sábia quanto nas coisas da física, Joan é propensa às paixões. E são elas que a levarão à espionagem.

Com isso, o diretor britânico Trevor Nunn vai compondo um filme à britânica: convencional, insípido e apoiado quase exclusivamente sobre seus atores (ainda que Judi Dench faça, na prática, uma ponta, o faz com brilho).

Ou antes, existe um outro ponto que o filme destaca: o comportamento de uma mulher num mundo essencialmente masculino. Sim, é verdade, muito do comportamento da jovem Joan pode ser creditado ao fato de ser mulher num meio masculino. Nada demasiado específico, apenas uma espécie de desconforto contínuo que incide sobre seus atos mais do que eventual propensão romântica.

Nada, também, que justifique o fato de o filme começar com o pessoal da contraespionagem batendo à porta da velha Joan, sem que o espectador tenha a menor ideia de quem é essa mulher (seria interessante saber, digamos, o que ela pensa da atualidade —a ação se passa no ano 2000—, como se dá com as pessoas do entorno, o que comenta quando vai às compras, sua relação com o filho, seus fingimentos a respeito do passado etc.).

Em vez disso, “A Espiã Vermelha” prefere se dedicar aos flash backs desde o segundo minuto de filme.

Quer dizer, se a direção é molenga, assim também é a dramaturgia. Resta o “filmão”: quadrado em sua concepção, frouxo na execução e, apesar de tudo, visível. Com um pouco de boa vontade, sim, visível.

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