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Cinema

Adolescência sem lição de moral faz de 'Anos 90' um filme acima da média

Longa-metragem independente marca a estreia do ator Jonah Hill na direção

Sérgio Alpendre

Anos 90 (Mid90s)

  • Classificação 16 anos
  • Elenco Sunny Suljic, Katherine Waterston, Lucas Hedges
  • Produção EUA, 2018
  • Direção Jonah Hill

O cinema independente americano dos anos 1990, sobretudo o de cineastas como Gus Van Sant, Larry Clark e Harmony Korine, é a inspiração de "Anos 90", a estreia na direção do ator Jonah Hill ("Superbad", "O Lobo de Wall Street").

Por algum feliz motivo, ou alguma habilidade no filtro estético, Hill consegue apreender o melhor desses cineastas - embora, convenhamos, o melhor de Clark e Korine seja pouco animador.

Podemos nos apegar à filiação Gus Van Sant, para quem Jonah Hill atuou no medíocre "A Pé Ele Não Vai Longe" (onde encontrou o ator mirim Sunny Suljic), mas de quem ele capturou a atmosfera e a vivacidade de obras mais felizes como "Garotos de Programa" ou "Drugstore Cowboy".

Nessa linha, acompanhamos a história de Stevie (Suljic), um adolescente de 13 anos que compensa a forma com que é explorado pelo irmão mais velho, Ian (Lucas Hedges), e com o que considera a incompreensão de sua mãe (Katherine Waterston), envolvendo-se com uma gangue de skatistas.

Esses garotos representam claramente algumas variações dentro do padrão da delinquência juvenil e urbana dos Estados Unidos, no caso, em Los Angeles.

A turma é formada por: Ray (Na-kel Smith), o líder, carismático e mais equilibrado; Fuckshit (Olan Prenatt), melhor amigo de Ray, um jovem que começa a enfrentar problemas com excessos; Fourth Grade (Ryder McLaughlin), um tímido aspirante a cineasta; e Ruben (Gio Galicia), mais jovem e imaturo (embora mais velho que Stevie).

Uma forma que Stevie encontra para ser logo aceito é fazer coisas que Ruben não tem coragem de fazer. Como saltar perigosamente —e irresponsavelmente— com o skate de um telhado a outro.

Com isso ele conquista a confiança dos mais velhos, sobretudo de Ray e Fuckshit, e provoca ciúme em Ruben, que se vê escanteado pelos que antes o acolheram tão bem. Se não se pode ser o mais velho de um grupo, que seja o mais novo, uma espécie de mascote. Foi o que Ruben deixou de ser com a aceitação de Stevie.

Um acerto do filme é o de não desenvolver um caminho óbvio e moralista rumo à criminalidade ou à decadência total. Vemos o fortalecimento da amizade entre eles e principalmente o rito de passagem de um garotinho para uma adolescência sexuada e iniciada nas drogas e na bebida.

Jonah Hill não tem o nível de sensacionalismo de Harmony Korine e Larry Clark —comparem, por exemplo, "Anos 90", com "O Cheiro da Gente", filme semelhante de Clark, sobre jovens skatistas em Paris.

Só um dos personagens de Hill esboça destino pouco honroso: Fuckshit. Mesmo assim, as manobras da vida sugerem que ele encontrará logo um eixo, sabendo dosar o hedonismo da adolescência com uma certa responsabilidade com seus amigos mais novos.

A delicadeza no trato das amizades e o equilíbrio na representação de uma adolescência à beira da perdição, mas sem lição de moral, fazem de "Anos 90" um filme acima da média do cinema independente americano. 

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