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Artes Cênicas

Christiane Jatahy abraça refugiados no limbo da realidade com a ficção

Espetáculo 'O Agora que Demora' está em cartaz no Sesc Pinheiros

Christiane Jatahy, diretora de 'O Agora que Demora' - Lenise Pinheiro/Folhapress
Nelson de Sá

O Agora que Demora

  • Quando Qui. a sáb., às 20h30; dom., às 18h. Até 2/6
  • Onde Sesc Pinheiros, r. Paes Leme, 195
  • Preço R$ 15 a R$ 50
  • Classificação 16 anos

Desta vez, é mais cinema do que teatro, como parece reconhecer a própria diretora Christiane Jatahy no programa.

Mas "O Agora que Demora" parte do princípio de que as imagens na tela só podem existir no presente, o aqui-e-agora do teatro. Que o espetáculo se dá no choque e na integração das ações filmadas, do passado, com aquelas dos atores espalhados pela plateia e dos próprios espectadores.

O palco é quase todo ocupado pela grande tela, como fica evidente quando ela é dramaticamente iluminada no final da apresentação, como que para receber os aplausos.

Mas não é possível tratar os pequenos documentários de "O Agora que Demora" como cinema, propriamente. Fora um ou outro momento mais concentrado, as projeções parecem depender da interação.

É uma ação recíproca intermitente que, além de elenco e público, envolve Jatahy e o colaborador artístico Thomas Walgrave, ambos num canto do palco, como que regendo.

Por vezes, atores e espectadores se veem projetados ao vivo, elevando o estranhamento, numa criação que busca o atrito em todas as frentes, a começar da ficção de Homero com a realidade dos expatriados contemporâneos.

Junto ou como resultado da atenção aos vários pequenos filmes de que é composta, o que se tem é o estilhaçamento da estrutura dramática.

Embora siga passagens da "Odisseia", a trama avança sobretudo através dos documentários. Atores e outros leem para a câmera trechos do poema clássico, conversam, dão depoimentos, comem.

A edição é fragmentada e muitas vezes confusa, inclusive quanto à perspectiva de que, refugiados como Ulisses, todos ali querem voltar para casa, para Ítaca. E esse é o centro do espetáculo, o objetivo que leva ou que deveria levar adiante os seus personagens.

São africanos que fugiram de guerra ou palestinos e índios brasileiros vivendo sob opressão, exílio interno. Cenas dolorosas e reveladoras, em que quase não se identificam vazios de significado, mas que não se costuram com facilidade umas às outras.

É uma viagem, até estruturalmente, disposta a enfrentar temas de trato muito difícil hoje em dia. Passa por regiões como a fronteira do Líbano com a Síria em guerra civil.

A protagonista, se é que se pode usar tal classificação, é a jovem atriz síria Yara Ktaishe, cuja trajetória aproxima "O Agora que Demora" da tragédia. Seu olhar na tela, muda, observando longamente um colega que declama, é talvez o momento mais tocante.

E ela surge na plateia, narra a prisão ao tentar voltar para casa, a impotência, a psicose. Em sinal oposto, três meninas africanas conversam de maneira adorável sobre Homero, brincando, depois dançando.

Na Amazônia, onde acaba a viagem, Jatahy entra em cena de vez, quase em solidariedade àqueles que expõe tanto. Busca traços do avô que sumiu na floresta, ouvindo velhos índios que ecoam memórias do que teria acontecido. Ela pede e os abraça, como se o fizesse com todos os desterrados que passaram pelo palco, do Irã, do Congo ou do Brasil.

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