'Éramos desgovernados', diz músico do Premeditando o Breque

Grupo que se tornou símbolo da música paulistana nos anos 1980 lança box com discos

Thales de Menezes
São Paulo

O conjunto com sete CDs tem o título mais direto possível: “Caixinha do Premê”. Estão na série os cinco álbuns de estúdio lançados pela banda paulistana entre 1981 e 1991, o disco ao vivo de 1997 e um novo lançamento, “Como Vencer na Vida Fazendo Música Estranha”, coletânea que foi feita especialmente para o lançamento do box.

O Premê só foi chamado Premeditando o Breque bem no começo de sua carreira, quando conquistou o segundo lugar no Festival Universitário da Música Popular Brasileira, da TV Cultura, com o samba de breque “Brigando na Lua”. Perdeu para “Diversões Eletrônicas”, defendida por Arrigo Barnabé.

A caixa que resgata a carreira do Premê, bancada pelo Selo Sesc, será lançada com três shows a partir desta sexta (31), até o domingo, no Sesc Pompeia. Por coincidência, dias depois da realização na cidade do festival Líricas Paulistanas, que celebrou os 40 anos da chamada Vanguarda Paulista, movimento que tinha Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Grupo Rumo e o Premê, entre outros.

“A gente nunca se preocupou com esse rótulo”, diz o tecladista Marcelo Galbetti, um dos quatro integrantes originais da banda. “O Rumo, por exemplo, estava inserido na vanguarda, seguiu um caminho do canto falado, uma evolutiva da canção brasileira, com releituras, trabalho de metalinguagem.”

Para Claus Petersen, que toca sopros e canta, “o Premê sempre foi muito diverso”. “Não tinha como fazer sucesso maior do que teve. Não dava para rotular a gente”, ele diz. Galbetti acha que isso foi ótimo. “Porque a gente se sentiu livre para fazer o que bem quisesse.”

Na verdade, o Premê, com suas músicas engraçadas, flertou com um alcance maior na mídia. Depois de dois discos independentes de repercussão num circuito mais alternativo, acabou conseguindo espaço em uma grande gravadora, a Odeon, e lançou três álbuns por meio dela.

“Temos recorde de público no Sesc Pompeia até hoje”, afirma o cantor e violonista Wandi Doratiotto. “A casa lotava, ficava gente do lado de fora, e a gente precisava fazer outro show em seguida.”

“Nunca fomos um fenômeno de estádio”, comenta Petersen. “Mas agora vai”, dispara o guitarrista e vocalista Mário Manga, entre gargalhadas dos colegas. “A gente chega no Allianz Parque, eu acredito!”

O tamanho do sucesso que o Premê conseguiu vira tema de discussão. “Num determinado momento, a gente almejou viver só de música, viver do Premê”, afirma Galbetti. “Por um tempo até conseguimos”, avalia Petersen.

“Quem é outsider até aparece por um tempo, mas depois falta embalagem para se encaixar no mercado e continuar a fazer sucesso”, diz Wandi. Manga já leva para a brincadeira: “Acho que foi uma injustiça, precisávamos ter tido mais sucesso, porque a minha conta no banco está muito fraca”.

Para Wandi, o grupo poderia ter feito uma carreira mais extensa, mas teria de abrir mão de suas características. “A gente não fazia nada que a gravadora desejava. Fomos às rádios do Rio, algo forte nos anos 1980, e os caras perguntavam qual era a música de trabalho do álbum, para que a rádio tocasse. A gente mandava o cara escolher qualquer uma para tocar. Éramos uns desgovernados!”

A “Caixinha do Premê” tem os sete álbuns, um pôster e um caprichado livro de fotografias e textos cobrindo toda a trajetória da banda. A sensação de estar lançando CDs num momento em que o formato começa a agonizar é comentada pelo grupo.

“Eu comprei um tocador de CD para poder escutar a caixinha na minha casa. Paguei R$ 220”, diz Petersen. Para Galbetti, o CD ser uma coisa “meio anacrônica” não afeta o lançamento. “Tem muita gente que curtiu ter o livrinho, o pôster, tem gente que compra e nem é para escutar, quer ter a coisa física.” Para Manga, “o sucesso dessa volta do vinil também passa por esse fetiche, de ficar olhando a capa”.

O sétimo CD da caixa tem músicas que não entraram nos álbuns, algumas vetadas pela censura nos anos 1980, como “Casa de Massagem”, que agora ganha videoclipe. “As censuradas são tão bobas que dá vergonha”, brinca Manga. “É que os caras tinham de censurar alguma coisa, para mostrar serviço. Era gente que tinha emprego de censor.”

No show, que incluirá hits como “São Paulo, São Paulo”, “Marcha da Kombi”, “Fim de Semana” e “Pinga com Limão”, haverá participação de Adriano Busko na bateria e Danilo Moraes, filho de Wandi, nas cordas e vocais.


Premê
Sesc Pompeia, r. Clélia, 90. Sexta (31/5) e sábado (1º/6), às 21h; domingo (2/6), às 18h. De R$ 9 a R$ 30. Box “Caixinha do Premê”, Selo Sesc, R$ 100

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