Descrição de chapéu Cinema

Sem festanças em Cannes, DiCaprio acha inferninho e Jarmusch serve orgânicos

Após #MeToo e lei do silêncio, festival não tem mais os rega-bofes antológicos de outrora

Guilherme Genestreti
Cannes (França)

Recostado com seus óculos escuros sob o sol da Riviera Francesa, o diretor americano Jim Jarmusch sente falta do que era o Festival de Cannes nos anos 1980, quando começou a frequentá-lo. “Hoje não há mais vulgaridade”, diz.

“Naquela época, se podia sair de um filme romeno cabeçudo e dar de cara com uma moça pelada pousando de paraquedas na rua, cercada por paparazzi.”

As festas tampouco são as mesmas —ao menos, não as que vêm à mente quando se imagina juntar um punhado de celebridades hollywoodianas a donos da grana no Mediterrâneo. Não foi em outra cidade, afinal, que Grace Kelly conheceu o príncipe de Mônaco.

Os frequentadores mais antigos falam em helicópteros pousando em iates, modelos recriando na piscina a cena da fonte de “La Dolce Vita” e a ordem de que os baldes de champanhe nunca ficassem vazios.

Hoje, as antigas “villas” ao redor da cidade não sediam mais festas, substituídas por coquetéis no fim da tarde. E mulher nenhuma mais dança em palquinhos  —reflexos da grita de movimentos como o #MeToo.

Aquilo que para alguns é a derrocada da boemia é também a história de uma indústria forçada a mudar em nome da pressão de grupos identitários e de receitas mais minguantes.

“O mercado se transformou, e distribuidores estão cortando os seus gastos”, diz Jonathan Rutter, chefe da divisão de cinema da agência de relações-públicas Premier. 
 

Filha para entrar em uma festa na praia durante o festival de Cannes
Filha para entrar em uma festa na praia durante o festival de Cannes - Valery Hache/AFP

As festas exuberantes foram as primeiras a ir embora, afirma ele, com a experiência de quem viu celebrações antológicas, como a do filme “Trainspotting”, em 1996, que terminou às 7h, com o músico Noel Gallagher e o escritor Irvine Welsh sobrevivendo à beira da piscina de um hotel na vizinha Antibes.

Dois anos depois, outra que ficou marcada na lembrança de Rutter foi a de “Velvet Goldmine”, com glamour compatível à ópera glam rock dirigida por Todd Haynes. “Era tão concorrida que as pessoas tinham que buscar o convite tendo o passaporte em mãos. Nunca houve coisa mais memorável.”

Jarmusch, o saudoso dos velhos tempos, ganhou uma festa bem-comportada após a exibição de seu “Os Mortos Não Morrem”, neste ano. No alto de um hotel, os convidados só tinham bebidas e petiscos orgânicos em mãos.

Há outro motivo para cortar a algazarra. O novo prefeito proíbe festas na praia depois das 2h.  Nada que impeça os mais boêmios de ainda encontrar algum refúgio fechado.

Famoso festeiro, Leonardo DiCaprio elegeu o Gottha, um clube noturno que cobra 20 euros pelo drinque mais básico. No muito mais exclusivo Albane, no topo de um hotel, a francesa Marion Cotillard foi flagrada dançando até o chão ao som de “Freed from Desire”.

​Para os anônimos sem convite, a madrugada pode rolar nas estreitas ruas de pedra de Le Suquet, o bairro histórico. Ali, um sexteto de britânicos de meia-idade, já pra lá de Bagdá, pedia para o sujeito do acordeom parar de tocar “La Vie en Rose”. “Toca a do ‘Poderoso Chefão’.”

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