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Filme premiado em Cannes mostra como a vida poderia ser para além do massacre do patriarcado

'Não me interessa tratar de heroínas', diz Céline Sciamma, diretora de drama lésbico de época

Cena do filme de Céline Sciamma exibido no Festival de Cannes Divulgação

Helen Beltrame-Linné
Cannes (França)

“Este quadro chegou aqui antes de mim”, diz a matriarca diante do seu retrato ainda jovem, explicitando ao espectador a dinâmica social vigente no século 18: o primeiro objeto que se envia ao pretendente é o quadro da pretendida; o segundo, a mulher.

Quem ouve é a jovem pintora chamada à ilha para retratar a filha da interlocutora, o que deverá fazer sem o conhecimento da retratada, que se recusa a posar, rejeitando o destino que lhe foi pré-traçado.

Junte-se a isso a direção de Céline Sciamma, uma das fundadoras do movimento 50/50 (que prega o estabelecimento de um equilíbrio no cinema por meio do aumento da representação feminina) e, pronto: estão colocados todos os elementos para um romance histórico em tons rasgados, com pitadas de lição feminista.

Mas “Portrait de la Jeune Fille en Feu” (retrato da jovem em fogo), vencedor do prêmio de melhor roteiro na competição do Festival de Cannes, é tudo menos isso.

“Não se trata de debater se a mulher tem um olhar mais especial que o homem”, diz a diretora em entrevista à Folha. “A questão é que o cinema foi construído pelo olhar masculino, isso forjou meu imaginário cinematográfico. Então, como mulher, me situo numa posição privilegiada, híbrida e livre, pois acumulo os dois olhares e posso contribuir para construir um imaginário feminino que o mundo desconhece.”

A ausência de viés militante —aliada à direção segura de Sciamma, que escapa de todas as armadilhas a que um filme de época com enredo tão dramático poderia sucumbir— faz de “Portrait” um filme que não busca culpados: ele investiga o funcionamento íntimo do ser feminino.

Talvez por isso ele contenha uma das cenas mais lindas da cinematografia mundial sobre um tema tão politicamente enraizado como o aborto: o assunto, já abordado por tantos vieses, nunca havia sido reduzido —no bom sentido— à sua questão emocional essencial com tamanha nitidez.

O talento de Sciamma é evidente desde o roteiro, que assina sozinha. Os diálogos têm precisão quase escultural e a linha narrativa não se perde em personagens secundários, caminhando segura até um desfecho elegante e catártico. Cada mulher representa uma classe social: a elite subjugada à tradição de casamento, a servente fadada às sombras e a artista, supostamente livre pelo seu ofício, mas também constrita pela sociedade que a obriga a assinar como homem. Mas o filme se constrói no âmbito íntimo de cada uma —e é na liberdade com que essas mulheres se relacionam ao superar seus papéis sociais que ele revela, dolorosamente, como a vida poderia ser para além do massacre do patriarcado.

“Não me interessa tratar de heroínas. Acho o bordão ‘se você quer, você pode’ desinteressante. O coração do filme é como o ‘Titanic’: elas sabem que não podem lutar contra o sistema, mas me interessa como elas vivenciam seus desejos e seu potencial nesse ambiente político”, declara a diretora.

Como se não bastasse a sólida narrativa, “Portrait” é uma verdadeira sequência de composições fotográficas magistrais, o que é feito apesar da direção de arte quase espartana (uma das protagonistas usa o mesmo vestido durante todo o filme).

As atrizes Adèle Haenel e Noémie Merlant no filme - Divulgação

Não há um plano feio ou fora do lugar, mas isso de forma alguma resulta numa sensação de rigidez: esse é um filme que respira, por onde flui ar, calor, eletricidade. Sciamma passa duas horas educando o olhar do espectador, permitindo que aprecie olhares, pele e a textura dos tecidos; ensinando-o com quantas cores e pinceladas se faz um quase sorriso.

“Retrato” é também um filme sobre cinema, e talvez resida aí a maior pertinência das referências a “Persona”, de Ingmar Bergman. Há aqui duas mulheres mutuamente traídas pelo olhar silencioso da outra, mas é justamente nessa observação que reside sua perdição. Afinal, há algo mais sedutor do que ser visto?

Nesse contexto, é total o sucesso das atrizes Adèle Haenel e Noémie Merlant, que conseguem navegar o complicado cortejo entre pintora e retratada com a maestria e clareza de seus rostos-máscaras que, aos poucos, se tornam humanas, revelando sorrisos e lágrimas.
Impossível não falar também de música, que Sciamma usa como viés narrativo (é a raiz do interesse de

Héloïse pela vida no convento e, ao mesmo tempo, um mistério a ser desvendado nas orquestras da distante e temida Milão) e também magistralmente na trilha (como jamais esquecer do coro de vozes na fogueira do vilarejo?).

“Portrait de la Jeune Fille en Feu” consegue ser tudo que não se espera de sua sinopse. É uma história de amor, sim, mas Sciamma constrói algo mais: um inquérito poderoso e formalmente perfeito sobre as vidas interiores de mulheres cujas paixões são negadas pelas ataduras que a sociedade (tanto de outrora, quanto de agora) coloca em todas nós.

CÉLINE SCIAMMA, 40
A diretora e roteirista francesa é uma das fundadoras do movimento 50/50, que prega o equilíbrio no cinema por meio do aumento da representação feminina. Ficou conhecida no mundo pela direção de "Tomboy" (2011), sobre uma garota que muda de bairro e se apresenta aos novos amigos como menino. Mais recentemente, em 2016, roteirizou a animação "Minha Vida de Abobrinha". Foi casada com a atriz Adèle Haenel, coprotagonista de seu filme mais recente, "Portrait de la Jeune Fille en Feu", vencedor do prêmio de melhor roteiro em Cannes.

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