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Artes Cênicas

'Irma Vap' moralmente correta tem a boa dupla Solano e Miranda

Transgressão político-sexual que havia na Nova York de quatro décadas atrás está diluída demais

O Mistério de Irma Vap

  • Quando Sex., às 21h; sáb., às 18h e 21h; dom., às 16h e 19h. Até 16/6
  • Onde Teatro Porto Seguro (al. Barão de Piracicaba, 740, São Paulo)
  • Preço Ingr.: R$ 80 a R$ 150
  • Classificação 12 anos

Como se fala a certa altura da apresentação, a peça "não faz o menor sentido".

De fato, a transgressão político-sexual que havia na Nova York de quatro décadas atrás e servia de pano de fundo ou subtexto para "O Mistério de Irma Vap" está diluída demais.

Já era um pouco assim na montagem histórica de Marília Pêra, que dirigiu Marco Nanini e Ney Latorraca em meados dos anos 1980 após ver a produção original da Ridiculous Theatrical Company.

Mas agora, na terceira ou quarta versão no país, contando até um filme, o travestismo não vai muito além do humor popular tradicional.

Por outro lado, novamente são dois comediantes experientes e de amplos recursos, Mateus Solano e Luis Miranda, muito diferentes entre si, como Nanini e Latorraca, mas que também compõem uma dupla cômica eficiente.

Miranda em especial, que começou na Salvador dos mesmos anos 1980 e pouco depois atuou na primeira montagem brasileira de "Angels in America", parece ter consciência do que está em jogo.

Existe no seu humor uma insolência que, casada ao olhar ironicamente amargo que às vezes deixa transparecer, remete não só ao Teatro do Ridículo de Charles Ludlam e outros de NY, mas a movimentos contemporâneos como a Movida Madrileña ou o besteirol. Todos carregavam um componente central de "cross-dressing" e foram os primeiros palcos para artistas como o cineasta espanhol Pedro Almodóvar, então como ator.

Já Solano remete mais àquilo que o besteirol carioca tinha de diálogo direto com a plateia, de empatia e sarcasmo, somado à comédia física que ele domina e que costuma explorar bem no teatro.

A dupla Solano-Miranda cria cenas muito engraçadas, de humor "zanni", esperto e amalucado, mas outras soam desnecessárias, estendendo a apresentação além do que requer a trama, aliás, uma paródia bobinha de filme de Hitchcock. Um "pavor-barato", no subtítulo da adaptação de Roberto Athayde, dos anos 1980.

Em tempo, como registra a produção, a peça "conta a história de Lady Enid, que vive na mansão mal-assombrada pelo fantasma da primeira esposa do marido, Lord Edgar", entre diversos personagens interpretados sempre pelos dois atores, como a governanta Jane e o faz-tudo Nicodemo.

É necessariamente teatro "camp", de irônico mau gosto, mas a peça nasceu e reflete muito do Village pós-confrontos de Stonewall, que deram início às grandes mobilizações pelos direitos LGBT no mundo, inclusive as paradas.

Pouco sobrevive disso na encenação de Jorge Farjalla, que prende "Ima Vap" ao cenário de um trem-fantama infantil e acrescenta quatro atores, ao que parece, só para ajudar Solano e Miranda nas trocas de figurino diante do público.

As menções pontuais e anódinas à política brasileira atual, inclusive uma defesa interessada da Lei Rouanet, não escondem que esta é uma montagem pouco disposta ao conflito, seja no próprio palco ou com o gosto do público.

Mas a peça poderia passar sem a piada de Solano, reclamando a certa altura que é heterossexual e não quer Miranda passando a mão, e sem o beijo condescendente e tão correto que trocam no final.

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