Descrição de chapéu

Leonilson bebia a existência aos borbotões, sem enxugar os lábios

É difícil não perceber em sua obra um silêncio de urgência, de afobação

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Foi breve a vida de Leonilson —morreu aos 36 anos, em 1993. De complicações provocadas pela Aids, a mesma doença que abateu naqueles anos um bom número de talentosos amigos. E é difícil não perceber em sua obra um silêncio de urgência, de afobação escandida em traços telegráficos. 

Muitos passaram por aqui a passos rápidos —de Radiguet a Lautreamont; de Schiele a Álvares de Azevedo ou Juan Gris: em todos eles, o sentimento da aflição frente ao tempo. Quase todos alertados pelo verso de Rimbaud (também morto aos 36 anos): “Por delicadeza, perdi a minha vida”. 

Em seus trabalhos, pinturas, desenhos ou versos, não há licença poética ou imagens de adorno; existe, sim, contundente pedido de socorro frente à plausível ausência de sentido da existência. Sem delongas, são todos nietzscheanos: a morte é irrefutável e inexorável, diabolicamente solitária, então deve ser vivida com o pé no acelerador.

Assim, a obra de Leonilson parece beber a existência aos borbotões, sem poder enxugar os lábios. Como seu contemporâneo Basquiat (que partiu aos 28 anos), pela fugacidade do instante abarcou objetos banais ou desavisados comuns a seu cotidiano. Leonilson arrematou linhas de costura, de crochê, pontos franzidos nas bordas de tecidos (algodão ou juta), corvin enrugado —os recursos saem de seu contexto inicial para ganhar contorno de instrumento estético. 

O caminho fora aberto por Duchamp e aprofundado na década de 1960 por artistas americanos e europeus: descontextualizar qualquer objeto de seu uso primário e sagrá-lo no altar da fruição artística.

Sem descuidar de estabelecer um flerte entre o erudito e o popular, e isso será ditado pelos Beats, Ginsberg, Kerouac, Burroughs e Ferlinghetti (parabéns por seu centenário, caro poeta). Os Beats unem os goliardos, a renascença, o jazz, a tradição oral e desterro voluntário.

Ainda adolescentes, lembro minhas conversas com Leonilson (na época, apenas Zé) nos corredores do Colégio Ideal, na paulistana avenida Angélica, depois das aulas de Casemiro Xavier de Mendonça. Cara, Casi estava falando de Ginsberg, Jasper Johns e de imprensa alternativa (Village Voice) e de Hunter Thompson e Tom Wolfe, tudo misturado e diante de nossos olhos cerceados pela cafona ditadura militar brasileira (era 1976, 77, ainda éramos ingênuos por acreditar no tal país do futuro).

Casemiro viria a se tornar, nos anos seguintes, baita crítico cultural, um dos primeiros a olhar seriamente a obra de artistas nipo-brasileiros, como Tomie Ohtake e Flávio-Shiro. Dele, até sua morte (outro que morreu cedo, aos 45, também de Aids), recordo sempre sua capacidade em juntar num olhar generoso a chamada alta cultura à cultura dita popular: Homero e Otacílio de Panelas; Goya e J.Borges; Paris e Tracunhaém. 

Vários artistas da geração dos 80, na qual Zé Leonilson se enquadra, irão explodir a ideia de território artístico e a cruel busca pela atormentada identidade brasileira. Espelhavam-se muito na ação de Tunga e de Antonio Dias, dois ícones desterritorializados.

Dias (um paraibano entre Milão e Colônia) será o grande ombro e irmão mais velho de Zé Leonilson. Em nossa adolescência, Zé Leonilson parecia refugar diante de sua origem nordestina. Tal herança só será pacificada bons anos depois, quando ele encampa o mood das rendas cearenses à sua costura pictórica. 

Mesmo assim, é uma aquisição emocional à custa de um pensamento estratégico. Algo da época. O além-território embala diversas influências, do estrito regional e do comezinho cotidiano ao espectro da cultura internacional reprocessada. Logo tal movimento terá uma costela fraturada para se tornar o étnico, numa afirmação ideológica sobre as origens. 

Dos artistas expoentes da década de 1980, será Zé Leonilson quem melhor mergulha numa estética embebida pela narrativa. Então temos o urbano fragmentado, em episódios telegráficos, microcontos assoprados por personagens construídos em poucos traços.

Parece uma comunicação de lambe-lambe, adquirida dos grafites ou palavras de ordem estampadas nos muros ou postes. Que por sua vez mantinha cumplicidade com os quadrinhos —afinal a cultura popular se juntava à indústria de massa. Tudo junto e misturado, cinético e assoprado em palavras sôfregas: o tempo sensível tem pressa.

Miguel de Almeida

Escritor e diretor dos documentários 'Não Estávamos Ali para Fazer Amigos' e 'Tunga, o Esquecimento das Paixões', é autor de 'Primavera nos Dentes' (ed. Três Estrelas)

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