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Mais mimado de Cannes, Tarantino colhe aplausos sem entusiasmo com novo filme

Diretor exibiu no festival 'Era uma Vez em Hollywood', com Brad Pitt e Leonardo DiCaprio

Brad Pitt, Leonardo DiCaprio, Quentin Tarantino e Margot Robbie

Brad Pitt, Leonardo DiCaprio, Quentin Tarantino e Margot Robbie Eric Gaillard/Reuters

Cannes (França)

Quentin Tarantino √© o diretor mais mimado do Festival de Cannes. 

Pelo novo filme dele, ‚ÄúEra uma Vez em Hollywood‚ÄĚ, a principal mostra de cinema do mundo abriu concess√Ķes e deixou de fazer uma sess√£o matutina do longa, reservada a parte da imprensa, e convocou um porta-voz do evento para ir √† exibi√ß√£o vespertina e, diante de mil espectadores, pedir ao microfone que ningu√©m desse spoilers. Colheu algumas vaias. 

A preocupa√ß√£o do criador de ‚ÄúPulp Fiction‚ÄĚ e ‚ÄúKill Bill‚ÄĚ √© que vazasse o desfecho de sua nova trama, que √© ancorada em fatos ocorridos no ver√£o californiano de 1969 e traz personagens reais como a atriz Sharon Tate e a seita de Charles Manson. 

Mas, levando em conta os aplausos n√£o muito entusiasmados que o filme recebeu em sua primeira proje√ß√£o, exclusiva para a imprensa, a preocupa√ß√£o talvez n√£o fosse para tanto. O filme dividiu a cr√≠tica segundo as primeiras postagens em redes sociais que pintaram e deve dividir a seita de aficionados no trabalho do cineasta. 

Para os que apreciam a sanguinol√™ncia de sua viol√™ncia estilizada, ‚ÄúEra uma Vez em Hollywood‚ÄĚ s√≥ engata na reta final. J√° os que s√£o f√£s daquelas suas frases de efeito de humor duvidoso, do empilhamento de refer√™ncias pop e do fetiche retr√ī, bem, esses at√© que s√£o contemplados. 

 
Para todos os demais seres humanos, ainda existem Jean-Luc Godard, Clint Eastwood e Spike Lee, que n√£o guardam palavras muito bonitas para se referir a Tarantino. 

A hist√≥ria de seu novo filme, o mais aguardado da escala√ß√£o da atual edi√ß√£o do Festival de Cannes, gira em torno de Rick Dalton, fict√≠cio ator de TV decadente vivido com algum brilho por Leonardo DiCaprio, e seu dubl√™, Cliff Booth, interpretado por um relaxad√£o Brad Pitt. 

Os dois vivem uma esp√©cie de ‚Äúbromance‚ÄĚ que flutua conforme a carreira do primeiro declina sob as traquitanas de um produtor vivido por um mal-aproveitado Al Pacino. 

Ao lado da mans√£o de Dalton fica o vibrante lar de Sharon Tate (Margot Robbie) e Roman Polanski (Rafal Zawierucha) ‚ÄĒaqui, sim, dois personagens da vida real. A compara√ß√£o entre os habitantes das duas casas diz algo a respeito de um assunto que Tarantino tateia, mas nunca aprofunda, a ascens√£o da Nova Hollywood

O ano de 1969, quando a trama se passa, sinaliza o auge de grandes transforma√ß√Ķes no cinema americano. √Č quando estrelas antigas da ind√ļstria, como o caub√≥i John Wayne, e os filmes dos grandes est√ļdios perdem espa√ßo para a chegada de novos realizadores (como Spielberg, Coppola, Lucas e Scorsese), mais arrojados e mais antenados aos anseios de uma juventude inflamada pela Guerra do Vietn√£. No filme, Rick Dalton representa a primeira vertente; Sharon Tate, a segunda. 

Aquele ano tamb√©m marcou outro evento marcante. Foi quando o psicopata Charles Manson ordenou que seu s√©quito de hippies apocal√≠pticos fizesse um derramamento de sangue. Mais precisamente, ordenou que entrassem na casa em que Polanski vivia e matassem quem ali encontrassem. O resto √© hist√≥ria. 

O diretor reproduz muitos dos detalhes reais do epis√≥dio, como o fato de os seguidores habitarem um rancho mantido por um velho cego e as andan√ßas do l√≠der do grupo pela casa em que os crimes ocorreriam mais tarde. 

O universo da ind√ļstria do entretenimento √© prato cheio para Tarantino se esbaldar naquilo que mais gosta, despejar as refer√™ncias que fizeram a sua forma√ß√£o cin√©fila. No caso, ele inclui acenos ao western spaghetti de Sergio Leone e aos filmes de kung-fu. 

Ele tamb√©m tem o m√©rito de recriar a Los Angeles da √©poca e as marquises de neon de seus cinemas de rua, hoje inexistentes. Para isso, fechou ruas da cidade e mandou reproduzir as antigas fachadas porque n√£o queria reproduzi-las em computa√ß√£o gr√°fica. O esmero √© tanto que o fetiche retr√ī, mais uma vez, serve mais para esconder a inconsist√™ncia do resultado. 

Ao final da sess√£o de gala, que contou com Brad Pitt e Leonardo DiCaprio na fileira de honra, a equipe do filme foi aplaudida por sete minutos ‚Äďn√£o √© pouco, mas √© menos do que as obras de Pedro Almod√≥var e Terrence Malick receberam por aqui. 

O jornalista se hospeda a convite do festival

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