Descrição de chapéu
Matheus Nachtergaele

O velho Antunes Filho me acordou para a vocação e também me tirou de cena

Ator Matheus Nachtergaele narra sua experiência de formação com o 'terrível e amado mestre', em 1989

Flavia Pucci e Helio Cicero na peça 'Paraíso, Zona Norte. A Falecida', em 1989, do diretor Antunes Filho Lenise Pinheiro/Folhapress

Matheus Nachtergaele

Há 30 anos eu era um menino ainda, mas já triste e aflito, como são os meninos que pressentem a necessidade de dar sentido à vida. 

Estava cursando Belas Artes, escrevia, desenhava, lia e dormia as horas imensas que dormem os jovens.
E, então, fui acordado. Um jato de água fria chacoalhou todo o meu corpo e acordei.

Era o (já) velho Antunes Filho me acordando para a vocação. “Você quer ser ator?”, ele gritava. “Por quê?”, inquiria, entre baforadas no cachimbo cheiroso. “Pra quê?”, sorria, estranhamente paterno e maléfico. Eu estava, sem saber, entrando para a fase adulta da minha existência, por meu desejo, mas à força, e no tablado do maior encenador brasileiro àqueles dias.

Era o inicio do processo de criação do espetáculo “Paraíso Zona Norte”. Eu integrava o elenco que encenaria duas peças de Nelson Rodrigues, “A Falecida” e “Os Sete Gatinhos”.

Estávamos diante de um torturado diretor que iniciava o processo de depuração e formatação de uma nova estética para sua obra. Antunes queria elevar o teatro de Nelson Rodrigues ao patamar trágico, arquetipal, mítico. Estava em febre criativa, buscando uma nova forma para sua arte, diante de um desafio —e nós éramos jovens ainda.

Ali, aos 20 anos, li Gaston Bachelard, teorias da física quântica, estudei o zen-budismo. As técnicas corporais baseadas em Tadashi Suzuki e as aulas de voz e ressonância duravam oito horas ao dia.
Havia o chamado desequilíbrio, um exercício criado por Antunes que consistia no seguinte: com pés paralelos e posição neutra de corpo, e os joelhos semiflexionados, inclinávamos levemente a cabeça para a frente e esperávamos a gravidade agir.

Deslocar-se seria interagir de forma fluida com a gravidade, honestamente, metodicamente, reflexivamente.

A cada passo fingido, um grito do mestre. A cada conquista, um novo desafio. Depois do primeiro passo, o segundo, depois o terceiro... Como frear o corpo nesse fluxo? Como interromper o movimento em perfeita dança com as forças gravitacionais?

Existiria o estático? Não está tudo em movimento na dança cósmica, mítica, aquela de Shiva? O ar tem densidade, como sentir isso? Como, depois demonstrar isso? Imaginar o ar feito de água? Estar submerso na água do ar, onde tudo flutua.

Eu imaginava, ingênuo e puro, que a água evaporada dos mortos girava em torno de mim junto com todas as outras águas do mundo. Atuar seria respirar os mortos, flutuar, oscilar como toda matéria oscila.
O mestre jamais é alguém, mas um momento. As coisas bonitas estão sabidas por dentro da gente, falta-nos perceber, nomear. A curra humanista precisa da entrega do discípulo, e o discípulo é ativo agente a buscar um lugar propício, uma fonte de saberes, e uma boa bronca, pra deixar de ser moleque.

De textos teatrais, os diálogos de Nelson eram aos poucos transformados em epítetos, o desequilíbrio que equilibra tudo guiava as passadas flexíveis do coro de atores, em ondas. Tudo que parecia complexo foi se fazendo simples e butô —e então, prestes a ter uma revelação, caí. 

Para Antunes, eu não estava pronto para estrear. Para mim, tudo soava como castigo, e me recolhi em amargor.

Colocado de escanteio, tantos meses depois do milagre, todas as horas diárias, os gritos, todas as leituras e debates febris, tudo parecia inútil. Eu não era um ator. Fugi para dentro de mim, esse poço escuro, sem perceber ainda que era minha ansiedade o aspecto combatido nesse gesto do melhor inimigo.

Fui assistir à estreia da peça muito perturbado e trêmulo. Do elenco dos primeiros dias de ensaio, pouquíssimos atores restavam a atuar na encenação definitiva. Sentei-me no fundo da plateia do Teatro Anchieta do Sesc e vi a melhor peça de teatro de todos os tempos —os passados e os futuros. 

Para fora do buraco de um velho metrô art nouveau, arquétipos rodriguianos deslizavam, oscilantes, dançando ao som dos épicos bíblicos hollywoodianos, rumo à tragédia de o sexo, na série humana, ser amor.

Carreguei comigo toda a experiência que tive ali para o meu primeiro fazer teatral, no Teatro da Vertigem.

Descobri que não, não estava pronto ainda àquele tempo, e que nunca mais estaria ou jamais estive, uma vez que, depois de um passo sincero, há que se ter coragem para outro, e depois outro, até que a “gravidade” de tudo nos freie.

 

Matheus Nachtergaele, ator que  iniciou sua formação no CPT, esteve em peças como ‘O Livro de Jó’ e ‘Molière’

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