Saiba de onde vieram versões musicais brasileiras como 'juntos e shallow now'

Em tradução capenga de canção de Lady Gaga, Paula Fernandes e Luan Santana viraram memes nas redes sociais

À esquerda, fusão do rosto de Paula Fernandes com o de Lady Gaga; no centro, Angélica com Vanessa Paradis; à direita, Sandy e Céline Dion
À esquerda, fusão do rosto de Paula Fernandes com o de Lady Gaga; no centro, Angélica com Vanessa Paradis; à direita, Sandy e Céline Dion - Jairo Malta
Lucas Brêda Maurício Meireles
São Paulo

Disseram que ela voltou americanizada. Depois de diversas versões, a música “Shallow” reapareceu na voz de Paula Fernandes e Luan Santana. Mas, dessa vez, tinha algo errado. A hashtag #MorreUmaEstrela inundou as redes sociais, e a canção virou motivo de piada. 

Tudo porque a cantora divulgou um trecho da faixa, em que canta “juntos e shallow now”. Assim mesmo, meio em inglês, meio em português —sem muito sentido em qualquer uma das línguas.

“Juntos” é mais uma versão da música que Lady Gaga e Bradley Cooper cantam no filme “Nasce Uma Estrela”, vencedora do Oscar de melhor canção original. A hashtag, crítica à tradução capenga de Fernandes, junto a uma infinidade de memes, teve efeito dúbio.

De um lado, fez da letra uma piada instantânea, o verso —junto a um trecho no qual Fernandes canta “xentir xaudade”—; de outro, fez a canção passar dos 3 milhões de acessos em menos de três dias no YouTube e no Spotify. O “juntos e shallow now” entra no lugar de “we’re far from the shallow now” (algo como “agora estamos longe da superfície”). 

O que incomodou os monstrinhos —como é conhecida a legião de fãs da Lady Gaga— foi Fernandes promover a música como a versão brasileira oficial de “Shallow”, já que supostamente teve a bênção da estrela americana.

Já havia pelo menos dez outras adaptações nacionais. A mais conhecida é “Labirinto”, de Priscila Senna, da banda Musa. Sem falar “shallow”, a versão tem “seu corpo é um labirinto, eu quero me perder” no lugar do verso polêmico.

Viviane Batidão, de Belém, fez “Eu Tô Contigo” logo após o Oscar. “No brega é muito comum, vem bem antes de mim”, explica. “É como se a gente colocasse um tempero paraense.”

Uma das estrelas do tecnomelody, Batidão já fez versões de Justin Bieber, Ariana Grande e da própria Lady Gaga, transformando “Million Reasons” em “Vá Embora”.

“Como não sei inglês, só o básico, procuro nem descobrir do que trata realmente [a letra original]”, diz ela, que cria letras sobre corações despedaçados. “Falar de traição é bingo, não tem erro, porque todo mundo leva chifre.”

Tanto nas adaptações parciais quanto nas recriações, as versões brasileiras são antigas. Pelo menos desde os anos 1930 e 1940, as músicas são ganham traduções aqui.

No livro “A Onda que se Ergueu no Mar”, Ruy Castro recorda clássicos americanos espirituosamente traduzidos. Castro e a escritora Heloísa Seixas, aliás, preparam uma série documental sobre o tema que deve ir ao ar na rádio MEC, no segundo semestre.

Assim como Fernandes, o compositor Aloysio de Oliveira não via empecilhos em manter trechos originais. Na tradução de “On the Sunny Side of the Street”, por exemplo, ele rimava “apetite” com “sobrinha Judite”, e acabava pedindo: “Venha e me visite lá no ‘sunny side of the street’.”

Outra abordagem comum é a adaptação fonética das músicas. “In the Mood”, clássico instrumental de Glenn Miller, virou “Edmundo” na voz de Elza Soares —abrindo caminho para que Leo Jaime transformasse a terna “Sunny”, gravada por Marvin Gaye, na desbocada “Sônia”, 15 anos depois.

Enquanto o cantor americano chama uma mulher de ensolarada, o brasileiro suplica à amante: “Sônia, não fica me excitando que eu tô de sunga”. Mais à frente, arremata: “Sônia, é por você que eu me masturbo”.

Além do rock, a Jovem Guarda se aproveitou bastante do pop da Itália.  “Banho de Lua”, clássico na voz de Cely Campello, era “Tintarella di Luna”, da italiana Mina.

Além de Aloysio, Haroldo Barbosa ficou conhecido como grande “versionista”. O cantor e compositor Rossini Pinto também ganhou fama no ramo, traduzindo diversos sucessos dos Beatles.

Devido à precariedade da indústria brasileira da época, muitas canções estrangeiras saiam primeiro em português e, só depois, no original. O jornalista André Barcinski, autor de “Pavões Misteriosos”, lembra que Ronnie Von chegou a ter “Meu Bem” anunciada como se fosse uma faixa dos próprios Beatles, autores da original, “Girl”.

Segundo ele, a gravação de versões era uma maneira barata de colocar sucessos internacionais nas prateleiras das lojas. “Sabendo que a música era boa, você fazia uma versão e não precisava comprar os direitos. Fazer versão, cover, não é ilegal. Foi uma saída comercial interessante.”

Mesmo com o crescimento da indústria, a versão brasileira continuou forte em todos os gêneros. Rita Lee já traduziu Beatles. Angélica transformou “Joe Le Taxi”, da francesa Vanessa Paradis, na erótica “Vou de Táxi”.

Quem também apostou no erotismo foi Ferreira Gullar, na letra de “Borbulhas de Amor”, versão de “Burbujas de Amor”, de Juan Luis Guerra —na letra, o homem quer ser um peixe para mergulhar no “límpido aquário” da mulher.

O mesmo aconteceu com “Bella Ciao”, hino italiano da resistência antifascista. No Brasil, o MC MM esqueceu a politização e compôs um funk sobre uma “novinha assanhadinha” que “só quer vrau”.

Há versões bem-sucedidas, como a tradução poética que Caetano fez para “It’s All Over Now Baby Blue”, de Bob Dylan, vertida para os versos dolorosos de “Negro Amor” —”Seu filho feio e louco ficou só/ chorando feito fogo à luz do sol”. Gilberto Gil já fez o mesmo com Stevie Wonder em “Só Chamei Porque Te Amo”.

A chegada e popularização da internet, junto ao maior acesso a línguas estrangeiras, diminuiu a frequência das versões traduzidas no mainstream.

Elas, contudo, continuam existindo na música fora do eixo Rio-São Paulo. Basta ver o que a banda Calcinha Preta fez com a balada sofrida “Without You”, na qual Mariah Carrey não vê motivos para continuar viva. No forró “Paulinha”, um coração em frangalhos indaga a um ex-amor: “Paulinha, por que se casou?”.


Versão brasileira

‘Shallow’, de Lady Gaga e Bradley Cooper 
I’m off the deep end, watch as I dive in/ I’ll never meet the ground/ Crash through the surface, here they can’t hurt us/ We’re far from the shallow now

Tradução literal 
Estou muito longe, me veja mergulhar/ nunca tocarei o fundo/ Rompa a superfície, aqui não podem nos machucar/ Estamos longe da superfície

‘Juntos’, de Paula Fernandes e Luan Santana 
Diga o que te fez sentir saudade/ Bote um ponto final/ Cole de uma vez nossas metades/ Juntos e shallow now

‘Joe, Le Taxi’, de Vanessa Paradis 
Joe le taxi/ C’est sa vie/ Le rhum au mambo/ Embouteillage/ Il est comme ça/ Rhum et mambo

Tradução literal 
Joe, o taxista/ Esta é sua vida/ O rum ao som do mambo/ Engarrafamento/ Ele é assim/ Rum e mambo

‘Vou de Táxi’, de Angélica 
Vou de táxi, cê sabe/ Tava morrendo de saudade/ Mas nem lembro/ Do teu nome

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