Peça revê frases ocultas sob teto do Congresso

Em 'Festa de Inauguração', grupo fala de mensagens que operários deixaram em estrutura escondida por forro de mármore

Atores do grupo Teatro de Concreto, em ensaio fotográfico usado em Festa de Inauguração
Atores do grupo Teatro de Concreto, em ensaio fotográfico usado em Festa de Inauguração - Divulgação
São Paulo

Há oito anos, a equipe de arquitetura e manutenção do Congresso Nacional precisou remover o teto de mármore do Salão Verde da Câmara dos Deputados para consertar uma infiltração.

As placas de pedra removidas encobriam a estrutura de concreto que forma toda a laje onde repousam as cúpulas da Câmara e do Senado, e nela foram encontradas frases datadas de 1959, escritas a caneta ou giz pelo grupo dos operários que ergueu Brasília.

Essas frases inspiraram o grupo Teatro de Concreto a criar “Festa de Inauguração”, espetáculo em que se discute um paradoxo comum dos séculos 20 e 21 —para que algo seja construído, algo será destruído.

Neste ciclo, o passado permanece condensado, exatamente como as marcas dessas velhas inscrições.
São mensagens carregadas de expectativa sobre o futuro, algumas com viés patriótico, e que são lidas agora pela criação cênica como uma manifestação amordaçada sob toda a estrutura que as envolve. 

Ao final da peça, uma atriz negra, Gleide Firmino, diz que muitas vezes se sentiu como aqueles operários, com sua voz encoberta por um revestimento de tonalidade branca.

“Amor, palavra sublime que  domina qualquer ser humano”, é uma das frases inscritas, assinada por Nelson e datada de 22 de abril de 1959. “Que os homens de amanhã que aqui vivem tenham compaixão dos nossos filhos e que a lei se cumpra” foi escrita no mesmo dia por José Silva Guerra.

Segundo Danilo Matoso Macedo, da Seção de Patrimônio Edificado do Congresso, sabe-se que as inscrições foram feitas pelos operários porque as assinaturas permitiram inclusive que parentes e conhecidos deles fossem localizados.

As frases são projetadas ou aparecem em faixas durante o espetáculo, que flerta com o gênero documental. Não há personagens no palco conduzindo a narrativa na maneira dramática tradicional. 
O que o grupo apresenta é uma espécie de depoimento sobre as diversas camadas sobrepostas na construção de um sentido de civilidade.

“A cidade é também a ruína de vocês, e me agrada pensar o tanto de coisas que posso encontrar se eu a escavasse”, diz um trecho do texto que introduz a peça de João Turchi.

“Vejo aquela loja onde costumava ser uma escola, esse prédio que um dia foi uma fazenda, eu vejo essa parada de ônibus no lugar de uma árvore torta do cerrado”, diz uma atriz, ainda no início da peça.

Montam ali uma leitura das cidades como “se elas fossem livros em que a arquitetura e os monumentos, por exemplo, são o texto”, diz Francis Wilker, diretor do grupo, que nesta montagem tem quatro atores em cena. “Nosso desejo nunca foi falar sobre a construção de Brasília ou sobre a classe operária”, diz, retornando às frases que o inspiraram. “Foi revelar vozes que nunca estão na boca da história”.

Há menção às criações mais antigas do grupo, já digeridas pelos novos trabalhos e localizados como subcamadas por baixo desta nova criação que vem à superfície. No fluxo do que é narrado por eles, surge, entre outros fatos, a resistência de um espaço cultural em Brasília —onde o grupo reside— ameaçado pelo avanço de novas construções.

Em uma oficina na Asa Norte, o mecânico José Perdiz construiu um espaço dedicado à cultura. Desde os anos 1980, ali foram apresentados diversos espetáculos teatrais. O próprio Teatro de Concreto atuou no espaço e o usou  para seus ensaios.

A Oficina Perdiz ainda existe, porém em outro endereço. A original, que foi construída irregularmente em um terreno público, foi demolida, mesmo após diversas manifestações da classe artística.

Segundo Wilker, entre as diversas entrevistas que deram base teórica e poética à criação do texto do espetáculo, destaca-se o depoimento de um arqueólogo.

Ele se recorda de que o entrevistado disse ao grupo, em determinado momento, que, para ele, arqueologia também era passar na frente da mesma igreja que a mãe dele frequentou a vida inteira.

A intenção é “vasculhar ruínas, descobrir discursos que nunca foram inaugurados”, o que passa pelos diversos sentidos cristalizados no próprio processo de construção da história da humanidade. 

“Eu vejo Pompeia sendo engolida pelo vulcão. Antes eu vejo o encontro entre duas placas tectônicas e, depois, a lava transformando a paisagem num museu de cera congelado pelo fogo”, diz o texto. 

Por fim, a peça avança em seu discurso das estruturas físicas e concretas para o mundo virtual. “Se a gente editasse as imagens da câmera de segurança e as tirasse de contexto, o que diriam dessas imagens?”, diz uma das atrizes.

Essa questão é posta durante o que, no roteiro da peça, parece ser a destruição de uma imagem de Dionísio, deus que marca na mitologia grega as devoções ao prazer, ao delírio, à embriaguez, aos banquetes fartos e o vinho.

Festa de Inauguração

  • Quando Quinta, sexta e sábado, às 21h30; domigos e feriado (20/6), às 18h30
  • Onde Espaço Cênico do Sesc Pompeia; rua Clélia, 93, tel. (11) 3871-7700
  • Preço R$ 6 a R$ 20
  • Classificação 18 anos
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