Prefiro a sátira que se espalha como uma mancha, diz ganhador de Cannes

Bong Joon-ho vence Palma de Ouro com crítica social em edição que privilegiou temas políticos

Guilherme Genestreti
Cannes (França)

Vencedor da Palma de Ouro, o filme “Parasite”, do sul-coreano Bong Joon-ho, é o exemplo mais bem-acabado de uma tendência que imperou nesta edição do Festival de Cannes —forte carga social embrulhada numa embalagem envolvente. É um dos melhores longas do ano e uma das escolhas mais acertadas das últimas edições da mostra francesa de cinema.

Presidente do júri, Alejandro González Iñárritu deixou claro que a decisão foi imantada por certa dose de politização. “Não houve agenda, mas achamos que o cinema tem, sim, uma urgência em mostrar consciência social.”

Há duas famílias no enredo de “Parasite”, que são a imagem invertida no espelho uma da outra. Uma é pobre, habita um fétido porão sujeito a alagamentos e é composta por gente que aprendeu a ser malandra porque a realidade assim o impôs.

A outra é rica, mora numa mansão projetada por arquiteto famoso e não esconde um deslumbramento com a opulência. No fundo, são iguais em suas mesquinhezas.

As vidas desses dois grupos se cruzam quando Ki-woo (Choi Woo-sik), do núcleo pobre, aceita dar aulas particulares de inglês para a filha primogênita do núcleo rico. Vê nisso a chance de colocar, um a um, os seus parentes na mansão.

Antes de disparar qualquer mensagem de denúncia, “Parasite” seduz o espectador alternando com maestria o suspense e a comédia. Não poderia ser diferente para um cineasta que ergueu sua carreira fugindo do drama tradicional —que o digam o terror “O Hospedeiro” e o mais família “Okja”.

“Como diretor de filmes de gênero, nunca me interessaram essas formas tradicionais de veicular algum comentário social”, disse ele, em entrevista a este repórter, dois dias antes de sair vitorioso. “Prefiro quando a sátira aos poucos chega à cabeça das pessoas, como uma mancha que se espalha.”

O cineasta também falou de sua opção por fugir da condescendência com os pobres ou da vilanização dos ricos. “Estão todos na mesma zona cinzenta, cometendo seus atos condenáveis. Não me considero um pessimista, mas não dá para negar que exista um abismo social e que seja assustadora a ideia de que isso não vai melhorar no futuro.”

O filme de Bong não está sozinho nessa onda de camuflar uma mensagem urgente ou de conteúdo político por meio da alegoria. O brasileiro “Bacurau”, vencedor do prêmio do júri, e “Atlantique”, que levou o Grand Prix, também vão por essa senda.

Se o primeiro evoca figuras ancestrais de cangaceiros para falar de resistência cultural, o outro traz à baila os “djinns”, espécies de gênios presentes na mitologia árabe, para tratar da condição das mulheres na cidade de Dakar.

“Little Joe”, de Jessica Hausner, que rendeu o prêmio de melhor atriz para Emily Beecham, usa o terror de plantas com propriedades misteriosas para abordar ganância científica e “gaslighting”, isto é, o desmerecimento de opiniões femininas como exageros ou loucuras.

A esses filmes de conteúdo social disfarçado por meio de símbolos, sátiras ou alegorias se somam aqueles que disparam recados sem rodeios.

Desses, os irmãos Dardenne, vencedores do prêmio de melhor direção por “Le Jeune Ahmed”, são o melhor exemplo. Mestres do realismo social puro sangue, os cineastas não usam qualquer subterfúgio, nem mesmo trilha sonora ou trucagem de câmera, para falar da radicalização de um adolescente belga de origem árabe que começa a flertar com o radicalismo islâmico.

Vai pelo mesmo caminho o estreante Lady Ly, de “Les Misérables”. O francês descendente de africanos toma o título emprestado da obra de Victor Hugo sobre os desvalidos para falar de um bairro suburbano de Paris nos dias de hoje, um barril de pólvora que mistura raças e religiões.

Dois anos e meio após a eleição de Trump, e depois da ascensão de líderes conservadores no mundo todo, já deu tempo para a produção autoral decantar o fenômeno. E, para abordar como ele afeta questões que sempre estiveram por aí, como a condição do estrangeiro, o papel da mulher e os abismos sociais.

Ao premiar filmes sombrios que falam dos vários tipos de opressão —caso de “Parasite”, “Atlantique”, “Les Misérables”, “Bacurau” e “Le Jeune Ahmed”—, o júri de Cannes deixou claro que está atento às tensões mundo afora.

É o que explica, por exemplo, por que Pedro Almodóvar e seu “Dor e Glória” tenham sido lembrados apenas no prêmio de ator, para Antonio Banderas. A história semiautobiográfica, sobre um cineasta em crise que repassa a própria carreira e os momentos de seu passado, pode ter soado um tanto apolítica.

Mesmo entre os filmes noir, que nunca primaram exatamente pela politização, houve algum aceno ao 
estado do mundo e às opressões de todo tipo.

Na superfície, “The Wild Goose Lake”, de Diao Yi’nan, parece só uma história de incansável perseguição, mas acaba cruzando lugares suburbanos que falam de uma China que cresceu desmesuradamente. E “Roubaix, une Lumière”, de Arnaud Desplechin, escolheu como cenário justamente Roubaix, cidade francesa em que metade da população vive abaixo da linha de pobreza.

Não é por acaso que o maior derrotado do ano seja Quentin Tarantino. O cineasta havia desembarcado em Cannes com estridência, ganhou aclamação entre os americanos, mas seu “Era uma Vez em Hollywood” não fala quase nada sobre 2019. Fala apenas sobre o próprio diretor.

PREMIADOS NA COMPETIÇÃO PRINCIPAL

Palma de Ouro
‘Parasite’, de Bong Joon-ho

Grand Prix
‘Atlantique’, de Mati Diop

Direção
Jean-Pierre e Luc Dardenne,
por ‘ Le Jeune Ahmed’

Ator
Antonio Banderas, por ‘Dor e Glória’

Atriz
Emily Beecham, por ‘Little Joe’

Prêmio do júri
‘Bacurau’, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, e ‘Les Misérables’, de Lady Ly

Roteiro
Céline Sciamma, por ‘Portrait de La Jeune Fille en Feu’ 

Menção especial do júri
Elia Suleiman, por ‘It Must Be Heaven’

Caméra d’Or
Cesar Diaz, por ‘Nuestras Madres’

Palma de Ouro por curta-metragem
‘The Distance Between the Sky and Us’, de Vasilis Kekatos

Menção especial a curta-metragem
‘Montruo Dios’, de Agustina San Martín ​

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