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Tema de série, mulher que cortou pênis de marido diz que ele ainda a persegue

Hoje, Lorena Bobbitt é ativista contra abusos e protagoniza série na Amazon Prime

Rodrigo Salem
Los Angeles

Ao procurar o nome Lorena Bobbitt nos mecanismos de busca online, ele nunca estará desassociado de um caso ocorrido em 23 de junho de 1993, em Manassas, Virgínia, Estados Unidos.

É como se a mulher não existisse fora dos relatos policiais e das manchetes sensacionalistas descrevendo como aquela imigrante equatoriana cortou o pênis do marido, John Wayne Bobbitt, e o jogou fora à beira de uma estrada.

O episódio virou um blockbuster midiático com a ascensão dos canais de notícias 24 horas, que ganharam força após a cobertura sem precedentes da primeira Guerra do Golfo, dois anos antes. 

No julgamento, Lorena acabou declarada inocente por insanidade temporária, após uma disputa nos tribunais para provar que o marido a estuprava e espancava constantemente, ganhou o imaginário popular, e transformou John Bobbitt em celebridade pop e Lorena em sinônimo de “mulher louca”.

Vinte e seis anos depois, a minissérie documental “Lorena”, produzida por Jordan Peele (“Corra!”) e dirigida por Joshua Rofé (“Lost for Life”), revisita o caso. Ela não traz novas evidências, como virou moda na televisão, mas joga uma luz sobre a parcialidade de todos os envolvidos.

“Ao longo dos anos, recebi diversas propostas para contar minha história, mas todas só queriam focar o membro”, conta uma levemente constrangida Lorena, agora usando o sobrenome de solteira, Gallo, em entrevista à Folha. “Ninguém captava a essência da história, que era sobre violência doméstica e ataques sexuais.”

Lorena não está exagerando. Os quatro episódios (já disponíveis na Amazon Prime Video) mostram como as autoridades não levaram em conta os casos de agressão de John Bobbitt e como a mídia o transformou em um personagem tragicômico depois de ter o pênis reimplantado. 

Bobbitt fez dois filmes “pornôs biográficos” (“Uncut” e “Frankenpenis”), apareceu como jurado de desfiles de beleza e era presença frequente nos programas do radialista Howard Stern.

Nos anos seguintes ao julgamento, ele foi preso duas vezes por violência contra duas mulheres diferentes. Mas Bobbitt nega sua culpa, inclusive diante das câmeras. “A melhor coisa que você pode fazer ao contar uma história é mostrar os dois lados de maneira equilibrada, pois ninguém vai poder dizer que fizemos esse filme de maneira tendenciosa”, exalta Rofé. “John Wayne Bobbitt teve a oportunidade de falar tudo que queria e isso deixou a voz de Lorena ainda mais poderosa, porque o espectador vê que ele está claramente mentindo.”

Com o fortalecimento de movimentos feministas como Rise Up e #MeToo, a voz dela não ficou apenas mais poderosa, mas ganhou novos contornos. Lorena, hoje com 49 anos, vive com um parceiro há mais de 20 anos e tem uma filha adolescente. Comanda uma fundação de apoio a vítimas de violência doméstica e viaja o país dando palestras.

“Muita coisa mudou nestes 26 anos, mas ainda temos muito trabalho pela frente, muitos vácuos na lei. A série é uma plataforma para minha voz, pois não passo um dia sem ver notícias sobre abusos domésticos. Isso não é um problema apenas dos Estados Unidos. Vejo também no Brasil e na América do Sul, onde há uma forte sociedade patriarcal e a cultura do machismo”, afirma a ativista, que ainda mora na mesma cidade. “Muitas vítimas em abrigos são LGBTQ e não podemos nos esquecer delas, porque violência doméstica não vê status social ou gênero.”

Já John Wayne Bobbitt ainda tenta assombrar sua ex-mulher. Em um dos momentos mais surreais da minissérie, as câmeras mostram cartas e mensagens recentes do homem tentando entrar em contato com Lorena —em uma delas, ele até sugere que tenham um filho juntos. Lorena conta à reportagem que tudo isso continua, mas não se abala.

“Mês passado, ele mandou uma mensagem usando o Facebook da fundação, falando que estou inventando histórias e que tudo é uma armação contra ele. Isso tem a ver com controle. A violência doméstica está enraizada nisso. Mostra que ele, como homem, ainda quer controlar minha vida”, diz ela, que não se arrepende de ter topado o projeto, mesmo voltando aos holofotes que evitou por mais de duas décadas. “Ao contar essa história, me sinto livre. Me sinto livre.”

Lorena
Disponível na Amazon Prime Video

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