Aos 81, Martinho da Vila pausa o samba para falar sobre 2018

Lula, Bolsonaro, Marielle e o noticiário inspiram livro de crônicas do compositor

Lucas Brêda
São Paulo

“Nunca pensei sobre isso, não penso muito nem na vida nem na morte”, diz Martinho da Vila sobre completar oito décadas em 2018. “Ninguém me trata como uma pessoa de 80 anos, pensam que tenho muito menos.”

A data motivou o sambista a escrever o livro “2018 - Crônicas de Um Ano Atípico”, uma reunião de relatos e pensatas sobre todo o ano passado cujo lançamento acontece nesta quarta-feira (12), em São Paulo.
“Ia falar sobre minhas festas, os shows de homenagem, coisas que já estavam programadas”, lembra Martinho. “Foi quando acabei minha leitura [do livro], que pensei: ‘Cara, esse ano foi diferente’.”

O sambista diz que, de muitas maneiras, 2018 foi um período marcante na vida pública brasileira. Foi quando ocorreu o assassinato da vereadora Marielle Franco, o fiasco do Brasil na Copa do Mundo.

Mas, para Martinho, a vitória de Bolsonaro nas eleições presidenciais foi o fato “mais atípico de todos”. “Geralmente, o candidato fala as coisas para ganhar voto. Ele fazia o contrário”, diz. “Falou contra as mulheres, e as mulheres votaram nele. Falou contra os negros, e a negrada toda votou nele. Falou contra os gays... E tem o atentado, que ajudou mais.”

“Crônicas de Um Ano Atípico” está cheio de pensamentos sobre esses acontecimentos e comentários sobre o noticiário. De certa forma, é como se os leitores tivessem acesso ao histórico pessoal do Twitter ou do Facebook do artista —caso ele usasse as redes sociais para reagir e opinar sobre esse acontecimentos.

Em relação à morte de Marielle, por exemplo, Martinho diz se sentir “num estado de perplexidade e insegurança” ao repassar a biografia da vereadora do PSOL-RJ, encerrando o texto com uma oração. No livro, cada mês de 2018 é dividido em quatro partes, referentes às semanas sobre as quais o sambista está refletindo.

A prisão de Lula e a visita de Martinho ao ex-presidente na Polícia Federal são assuntos recorrentes. “Minha intenção de visitá-lo era como amigo, não como atitude política”, comenta, antes de emendar: “De qualquer maneira, acaba sendo [política]”.

O cantor Martinho da Vila durante entrevista em 2018 - Folhapress

Sobre a revelação das conversas que mostram a interferência de Sergio Moro na atuação do Ministério Público quando ele era juiz, o sambista fala que “já tinha isso no sexto sentido”. “A prisão do Lula foi mais para evitar que ele se candidatasse.”

Aos 81 anos, Martinho mantém o tom leve mesmo nos assuntos mais tocantes —uma característica que acompanha seus sambas há pelo menos 50 anos. É assim no capítulo que ele considera o mais emocionante do livro, em que celebra e lamenta velórios de personalidades do samba, lembrando de amigos como Dona Ivone Lara e retratando as cenas de cantoria nos funerais.

Mas, como não costuma pensar nem na vida nem na morte, Martinho segue emendando risadas enquanto tenta imaginar o futuro do país a partir do que foi retratado em seu livro. “Não acredito que haja um analista político que consiga fazer uma previsão. Eu só vou vivendo. Deixo o amanhã para depois.”

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