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'Arquivo das Crianças Perdidas' investiga a impossibilidade de futuro

Sobre imigrantes, livro de Valeria Luiselli opera em permanente estado de dúvida

Joca Reiners Terron

Arquivo das Crianças Perdidas

  • Preço R$ 74,90 (408 págs.)
  • Autor Valeria Luiselli
  • Editora Alfaguara
  • Tradução Renato Marques

Um casal em crise acompanhado dos filhos de casamentos anteriores (o menino é dele; a menina, dela), zarpa numa jornada peripatética sobre quatro rodas pelos estados dos Estados Unidos que um dia pertenceram ao México, e antes, aos povos originários que viviam na região. 

Vão de férias, mas não são “férias normais”. Os adultos, como de costume, têm seus segredos. Já as crianças sofrem de ávida curiosidade. Até aqui, tudo normal em “Arquivo das Crianças Perdidas”, de Valeria Luiselli.

O marido é uma espécie de historiador sonoro: registra sons cotidianos para a posteridade. Ela, jornalista, é a narradora, mas nem sempre. Ambos se conheceram num projeto dedicado a documentar a paisagem sonora de Nova York, onde vivem, especificamente as mais de 800 línguas faladas na metrópole. Ao gravar a única falante de um dialeto indígena mexicano, ela descobre que os filhos da entrevistada estão presos num campo de detenção para crianças imigrantes no Texas.

A escritora mexicana Valeria Luiselli, que lança romance no Brasil, em foto de 2016  
A escritora mexicana Valeria Luiselli, que lança romance no Brasil, em foto de 2016   - Adriana Zehbrauskas/Folhapress

Ele quer ir ao Arizona pesquisar os Apaches, último povo a sucumbir ao genocídio colonialista. Mas talvez seja desculpa para salvar o casamento. Ela quer salvar as crianças imigrantes, ou ao menos contar sua história num documentário, porém não se sente à altura da tarefa.

Dessa hesitação ética, entre desejar escrever e ao mesmo tempo não se sentir autorizada a isso, surge o romance de Luiselli. Assim, a narradora, que em muitos pontos coincide com a própria autora, não se exime de expor o desconforto com seu lugar de fala. 

Nesse (e noutros) sentidos, é hiperconsciente da responsabilidade política de explorar a crise migratória alvejada pela administração Trump sem estar na mesma situação que as vítimas. Mas sua preocupação não se resume a isso.

Luiselli, exímia ensaísta (fato raro, ela estreou com um livro de ensaios, “Papeles Falsos”, em 2010), resgata o princípio de tentativa e erro que mora no coração desse gênero. Ao adotar como mote a inconstância da viagem e da paisagem —humana e geográfica— à medida que a família se move, as considerações da narradora exploram os reflexos, apropriadamente tratados como ecos, do estilhaçamento social na vida de uma família em vias de acabar.

Mas não é só isso: em sua estrutura de arquivo, com capítulos que exploram o conteúdo das caixas que estão no bagageiro do carro, esse notável romance opera consciente e permanentemente em estado de dúvida. 

Afinal, como documentar o presente diante da impossibilidade de um futuro? Essa é a pergunta de um milhão de dólares de toda uma geração de crianças perdidas.

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