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Cinema

'Blitz' é um bom drama sobre um PM em crise profissional

No longa brasileiro, cabo Rosinha é acusado de matar um garoto de classe média baixa

Naief Haddad

Blitz

  • Classificação 14 anos
  • Elenco Rui Ricardo Diaz e Georgina Castro
  • Produção Brasil, 2018
  • Direção Rene Brasil

Com um cabo da Polícia Militar como personagem principal, o filme brasileiro “Blitz” poderia, numa avaliação apressada, ser classificado como um representante do gênero policial.

Engano. Não existem cenas de ação ou efeitos especiais, tampouco reviravoltas na trama. A violência aparece de forma apenas pontual. “Blitz” é definitivamente um drama, um bom drama.

Primeiro longa de Rene Brasil, diretor paulistano de carreira premiada em curtas, “Blitz” acompanha uma crise profissional do cabo Rosinha (Rui Ricardo Diaz), que contamina a vida familiar.

Cena do filme "Blitz"
Cena do filme "Blitz", de Rene Brasil - Divulgação

Ele é acusado de matar um garoto durante uma blitz promovida por um grupo de policiais em uma escola pública no bairro de classe média baixa onde vive. Antes amigos, os vizinhos passam a ver cabo Rosinha como uma ameaça. E pior, sua mulher, Heloísa (Georgina Castro), está prestes a abandoná-lo.

O casal, aliás, já suporta um fardo do passado, a morte do único filho, vítima de uma doença genética.

Quase toda a trama acontece na pequena casa onde vivem. É nesse espaço que o roteiro de Bosco Brasil apresenta uma costura cuidadosa de encontros e desencontros afetivos.

Tio do diretor, Bosco tem uma carreira de dramaturgo de mais de duas décadas e meia, com trânsito por cinema, teatro e TV. É dele, por exemplo, a peça “Novas Diretrizes em Tempos de Paz”, que depois virou filme.

É preciso reconhecer ainda que a tensão não se desenvolveria bem ao longo de “Blitz” sem a direção segura de Rene e as interpretações do casal protagonista.

Cabo Rosinha escapa dos rótulos sempre reiterados pelo cinema para retratar policiais, ora como heróis, ora como homens violentos ou corruptos. O personagem de “Blitz” carrega conflitos de ordens mais complexas, expressos de modo admirável por Rui Ricardo Diaz.

Ao lidar com os limites de uma explosão emocional no convívio de um casal paulistano de classe média baixa, “Blitz” se aproxima em alguns momentos da potência de “Um Céu de Estrelas” (1996), de Tata Amaral, um dos grandes filmes brasileiros da década de 1990.

O novo filme falha, no entanto, quando a câmera deixa a casa, ambiente onde a tensão se aprofunda. Um exemplo é a participação frouxa do padre, uma espécie de conselheiro do casal.

Não é, porém, um problema que ponha “Blitz” a perder. Assim como os protagonistas que escolheu, Rene Brasil é um nome que merece atenção.

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